Um pouco mais de Luz

A SABEDORIA É UM REFLEXO DA LUZ ETERNA (V. Sb 7,26)

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Da Pessoa - anexo II

terça-feira 28 de Fevereiro de 2017

Destaques:

"A pessoa leva e envolve o seu corpo e a sua alma, mas é simultaneamente levada e envolvida por eles. A sua vida de espírito eleva-se de um fundo obscuro; ela sobe como a chama de uma vela que luz, mas ela é alimentada por uma matéria que em si não dá luz."

"A vida consciente, na sua íntegra, não equivale ao meu ser ― ela é semelhante a uma superfície iluminada em cima de um sombrio abismo que revela esta superfície. Se quisermos compreender o ser que a pessoa humana é , devemos tentar penetrar nesta profundidade tenebrosa."

"O homem não é animal nem anjo pois ele é os dois num. A sua condição de corpo sensível é diferente da do animal, e a sua espiritualidade é outra que não a do anjo."

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SER FINITO E SER ETERNO [1]

1. [O homem na sua qualidade de corpo, de espírito e de alma. O que é próprio da sua vida espiritual.]

O homem é um ser feito de corpo, de alma e de espírito. Na medida em que, por natureza, é um espírito, pela «vida do seu espírito» sai dele próprio e entra num mundo que a ele se abre, sem que, no entanto, ele perca alguma coisa dele-mesmo. Não somente ― como toda a formação real ― ele «exala» a sua natureza de uma maneira imaterial, exprimindo-se ele-mesmo inconscientemente; ele age igualmente enquanto pessoa e enquanto espírito. Enquanto espírito, a alma humana ultrapassa-se a si mesma na sua vida espiritual. Mas o espírito humano é condicionado tanto para cima como para baixo: ele está imerso no organismo material que ele anima e forma para fazer dele o seu corpo [Leibgestalt]. A pessoa leva e envolve o seu corpo e a sua alma, mas é simultaneamente levada e envolvida por eles. A sua vida de espírito eleva-se de um fundo obscuro; ela sobe como a chama de uma vela que luz, mas ela é alimentada por uma matéria que em si não dá luz. Ela ilumina sem ser, de parte a parte, luz: o espírito humano é visível para ele-mesmo, mas não é totalmente transparente: pode iluminar outra coisa sem a penetrar completamente. Já assinalámos os seus aspectos obscuros [2]: através da sua própria luz interior ele conhece a sua vida presente, e muito do que foi outrora a sua vida presente; mas o passado é lacunar e o futuro só é previsível com uma certa probabilidade através de retalhos; ele é em larga escala incerto e indeterminado, mesmo que seja apreensível nesta incerteza e nesta indeterminação; a sua origem e o seu fim são totalmente inacessíveis (enquanto nos apoiarmos na consciência que depende da própria vida sem nos socorrermos da experiência alheia , do julgamento e do raciocínio ou das verdades de fé ― outros tantos meios de que o puro espírito não necessita para se conhecer a si mesmo). A vida presente, imediatamente certa, é o cumprimento fugidio de um instante que imediatamente cai e que muito em breve nos escapa completamente. A vida consciente, na sua íntegra, não equivale ao meu ser ― ela é semelhante a uma superfície iluminada em cima de um sombrio abismo que revela esta superfície. Se quisermos compreender o ser que a pessoa humana é , devemos tentar penetrar nesta profundidade tenebrosa.

2. [A vida do eu e o ser do corpo e da alma.]

Falávamos de um duplo além, em direcção ao qual o espírito humano avança na sua vida desperta e consciente: o mundo exterior e o mundo interior. (ultrapassando estes dois mundos, estas duas vias conduzem a um além superior, o do ser divino). O mundo exterior pode ser compreendido em dois sentidos: como tudo o que não pertence ao eu, à unidade monadária do meu ser ― compreenderia então igualmente os mundos interiores de outros espíritos, ou como o que só é acessível à percepção externa, o mundo corpóreo com tudo o que lhe pertence. Então o mundo interior compreenderia também o mundo interior de outras pessoas. Por agora, limitamos a nossa observação ao mundo interior próprio. Isso não designa simplesmente a vida consciente do eu ― a vida presente e, a partir dela, a vida passada e a vida futura acessíveis através de uma apreensão prospectiva e retrospectiva, a unidade do fluxo do vivenciado ― mas também o que não é imediatamente consciente, de onde se eleva a vida consciente. Estou a reflectir numa questão difícil e tento em vão encontrar uma solução. Enfim , eu desisto, pois «hoje estou muito estúpido». Não posso perceber a minha estupidez com os sentidos exteriores (abstraí-mo-nos aqui da marca exteriormente perceptível que ela pode dar ao corpo). Ela também não pode ser-me «imediatamente consciente», como a reflexão cujo curso ela me permite ver. Mas tenho uma «experiência» dela, comunica-se a mim da mesma maneira que faço a experiência do uso de uma faca quando já não posso servir-me dela para cortar o pão. À forma mais original de uma tal experiência, sobre a qual se constroem os julgamentos e as conclusões ulteriores e que, conservada na memória, nos permite progressivamente acumular um tesouro de experiências graças às quais «nos conhecemos a nós mesmos», chama-mo-la com Husserl, percepção interna. Ela é completamente distinta da consciência que acompanha indissoluvelmente a vida do eu (enquanto vida do eu puro), mas desempenha nesta um papel indispensável. O que eu percebo interiormente e que no curso da vida aprendo a conhecer cada vez melhor é qualquer coisa que tem um carácter de objecto: possui qualidades estáveis (dons do entendimento ― por exemplo uma facilidade mais ou menos grande para apreender as coisas, uma acuidade de julgamento, a capacidade para descobrir laços, passa por estados de mudança de duração mais ou menos longa (alegria e entusiasmo por toda a espécie de empreendimentos, ou abatimento e inibição), e age de diversas maneiras; sofre influências exteriores e ele-mesmo exerce uma acção que ultrapassa o seu próprio mundo interior, e assim insere-se no conjunto causal do mundo da experiência. Eis simplesmente algumas primeiras indicações para atrair a atenção sobre um ente dotado de uma estrutura extremamente complexa. A pequena experiência vivida de que partimos pode ainda conduzir-nos noutra direcção. Constatei que hoje estou muito estúpido. Portanto eu fui mais inteligente noutras vezes, e espero sê-lo de novo amanhã. Não se trata portanto de uma qualidade imutável, mas de uma disposição passageira. Penso igualmente saber a que isso se deve: a minha cabeça hoje está muito pesada; é como se ela estivesse envolvida num nevoeiro espesso. Esta constatação faz dirigir o nosso olhar para um domínio inteiramente novo: o facto de a cabeça ter qualquer coisa a ver com o pensamento inscreve-se na grande problemática da relação entre a alma e o corpo. O que é a alma? O que é o corpo? É a alma esse qualquer coisa que eu percebo e experimento interiormente, ou antes é o todo constituído de um corpo e de uma alma? Surge uma multidão de questões perturbadoras. Vamos simplesmente tentar progredir bastante longe para que se torne apreensível o que é próprio da pessoa humana, e assim do ser-homem em geral.

A cabeça e o corpo completo são uma coisa física, perceptível pelos sentidos externos. Mas nesta percepção estou submetido a surpreendentes limitações, o que não se passa para qualquer outro corpo. Não possuo a seu respeito uma completa liberdade de movimentos, não o posso observar de todos os lados, pois não posso «desfazer-me dele». Em contrapartida, no que lhe diz respeito, não dependo apenas da percepção externa. Percebo-o do interior. É por isso que ele é corpo (animado) [Leib] e não apenas corpo (material) [Körper]. Ele é o «meu» corpo, e pertence-me como nada do exterior é meu, pois habito nele como na minha morada «inata», sinto o que se passa e o que lhe acontece; percebo-o ao mesmo tempo que o sinto. A sensação dos processos corpóreos é tanto «minha vida» como o meu pensamento e a minha alegria, embora se trate de movimentos vitais de uma espécie totalmente diferente. O frio que percorre a minha pele, a pressão na cabeça, uma dor de dentes ― tudo isso não surge como uma actividade intelectual voluntária, e estas sensações também não provêm de profundezas interiores, como a alegria, mas eu estou nelas; o que toca o meu corpo toca-me também a mim, e precisamente no sítio em que é tocado ―, eu estou presente em todas as partes do meu corpo onde sinto qualquer coisa de presente. O facto de sentir pode produzir-se de maneira impessoal, como uma impressão puramente sensível que, propriamente falando, não atinge o eu espiritual. Ele é certamente atingido na medida em que o sentir ou o tocar se lhe tornem conscientes, de modo que ele a veja e a constate (intelectualmente). Mas sentir e tornar consciente são duas coisas diferentes. A partir daí conseguimos compreender a possibilidade de uma vida de puras sensações, que nunca tomam a forma da vida do eu pessoal, como devemos pensá-lo para os seres puramente sensitivos. Por outro lado, os processos corpóreos podem ser incluídos na vida pessoal: cada passo, cada movimento da mão realizado livre e judiciosamente é um acto pessoal para a unidade do qual o corpo colabora e onde ele é compreendido e sentido como tal. Enquanto instrumento dos meus actos, o corpo pertence à unidade da minha pessoa [3]. O eu humano não é apenas um eu puro, nem apenas um eu espiritual, mas é também um eu corpóreo.

Mas o que é corpóreo nunca é simplesmente corpóreo. O que diferencia o corpo de um simples corpo físico [Korper], é que ele é um corpo animado. Onde houver um corpo próprio, há também uma alma. E inversamente: onde houver uma alma, há um corpo próprio [4]. Um objecto físico sem alma é simplesmente um corpo físico e não um corpo vivo. Um ser espiritual sem corpo carnal é um puro espírito, e não uma alma. Quem não quiser falar de alma relativamente às plantas também não deve atribuir-lhe um corpo. Deve então empregar outro termo para distinguir organismos materiais animados dos que são inanimados. Conhecemos a concepção tomista da alma que ― com Aristóteles ―, vê na alma a forma essencial de todo o ser vivo, e que distingue diferentes graus de uma tal informação, na medida em que só é produzida uma estrutura material viva, ou igualmente uma vida interior, e que esta vida interior é apenas sensitiva, ou igualmente espiritual. Segundo o seu grau de eficácia, distinguem-se assim as almas da planta, do animal e do homem (alma vital, alma sensitiva e alma racional), e de tal forma que o grau superior traz em si a mesma coisa que o grau inferior, acrescentando-lhe aquilo que é a sua função particular. Clarificámos o sentido de forma [5] no que ela confere ao ente a sua determinação essencial. Para o corpo morto, devemos compreender por isso apenas o que fixa a propriedade específica do seu ser material, a sua maneira particular de organizar e de preencher o espaço, do seu movimento e dos seus efeitos, e o sentido inteligível que se exprime na particularidade da sua linguagem espacial de forma. A qualidade diferencial das formas vivas que as distingue das que são inertes está na sua força que, superior à matéria, pode reunir e transformar uma grande quantidade de organismos materiais já existentes, e formar com eles um todo articulado, que mantém e perpetua a unidade estrutural assim formado num constante metabolismo. O seu «ser é vida e a vida é formação da matéria em três graus: a transformação dos elementos nutritivos, a auto-formação e a reprodução e a reprodução» [6].

Convém considerar o que distingue a vida tomada neste sentido ― o ser dos organismos materiais vivos enquanto vivos ― da vida dos puros espíritos. A vida ligada à matéria é o devir de um ente que deve primeiro tomar posse da sua natureza, que «evolui» e segue o caminho da plenitude de si. A vida do espírito é um desdobramento de essência como actividade de qualquer coisa de completo no seu género essencial [7]. Encontra-mo-nos de novo perante uma analogia: o nome vida não é simplesmente equívoco; tem em ambos os casos uma significação comum. Tanto um como outro designam o ser enquanto movendo-se a si mesmo a partir da sua própria natureza. Mas num caso, é um movimento no qual o ente ― enquanto que em devir ― vem a si mesmo, no outro caso é um movimento no qual ele sai ― enquanto que perfeito ― e entrega-se a si mesmo sem no entanto se deixar ou se perder: ambos são uma imagem que «participa» mais ou menos perfeitamente na plenitude da vida do ser divino.

Considerámos (com Hedwig Conrad Martius) que o que é próprio da alma é que ela deve ser concebida como o centro do ser do vivente, e como a fonte escondida de onde extrai o seu ser e se eleva à sua forma visível [8]. O corpo material inanimado é uma realidade singular, caracterizada e unificada, mas não formada a partir do seu próprio centro, nem a partir do interior. Em contrapartida, para o ser puro finito, não podemos falar de um centro ôntico, não apenas porque não possui um exterior naturalmente ligado a ele que deveria ser formado do interior e em correspondência como o interior, mas ainda porque ele não se forma a partir de um fundamento escondido.

Retenhamos em primeiro lugar o sentido segundo o qual a alma é o centro ôntico dos corpos materiais vivos ― de tudo o que «traz em si o poder de se formar a si-mesmo» [9]. Mas a palavra alma encontra uma justificação verdadeiramente plena no local onde o interior é não apenas o centro e o ponto de partida da configuração exterior, mas ainda o lugar onde o ente faz irrupção para o interior, no local onde a vida já não é apenas formação de matéria, mas um ser em si, e onde cada alma é um «mundo interior» fechado sobre si, mesmo que ela não esteja separada da sua conexão como o corpo e ao mundo real inteiro. Isso, já o é a alma sensitiva, a qual não tem vida espiritual comparável à das almas puras. A sua vida psíquica é inteiramente ligada ao corpo, ela não se eleva acima da vida corpórea para formar um domínio de significação autónomo que poderia destacar-se dela. O que acontece ao corpo é sentido, experimentado, e responde-se a partir daí, do interior, do centro da vida, através de movimentos e impulsos que servem para a conservação e o crescimento da vida psíquica. Mas não seria justo considerar a alma animal como um simples «utensílio» ao serviço do corpo, e a ele subordinado. Reina aqui um equilíbrio entre o interior e o exterior, enquanto que para a planta o exterior predomina absolutamente, e que alma humana, tem uma vida separável do corpo, carregada de uma significação própria. O animal é uma unidade de forma somático-psíquica, o seu género manifesta-se de duas maneiras: nas propriedades físicas e nas propriedades psíquicas, e manifesta-se num comportamento ao mesmo tempo físico e psíquico. É como totalidade que o animal está presente no seu meio, e é enquanto todo que ele se confronta com o mundo, de uma maneira que lhe é própria. É do ponto mais íntimo do seu ser, onde se produz a troca entre a impressão exterior e o comportamento correspondente, que ele se confronta. Esse é um centro vivo onde tudo converge e de onde tudo parte: o jogo dos stimuli e das respostas é a vida do eu. Mas não é uma experiência vivida e consciente, nem uma tomada de posição livre. Este eu é entregue e abandonado às «rodagens» da vida; ele não se levanta pessoalmente por detrás, nem o domina.

3. [Corpo, alma, espírito, o «castelo da alma».]

Na alma humana, este aprumo realizou-se. Aqui, a vida interior é: estar consciente, e o eu: estar desperto, o espírito do qual ― espírito aberto ― olha para o exterior e para o interior; Ele pode receber o que vem ao seu encontro, compreendendo-o e pode reagir de uma maneira ou de outra segundo a sua liberdade pessoal. Ele pode, e porque pode, o homem é uma pessoa espiritual, o portador da sua vida, no sentido eminente do «manter-se vigilante» pessoalmente. Ele não faz, portanto, pleno uso da sua liberdade, mas abandona-se amplamente ao «acontecimento» ou ao «fluxo das coisas», como um ser sensível. E de facto, ele é verdadeiramente um ser sensível e não está absolutamente nada à altura de fazer de toda a sua vida um acto livre. O puro espírito criado só é limitado na sua liberdade pelo facto de não extrair o seu ser dele mesmo mas de o receber, e isso durante toda a sua vida como um dom sempre novo. Toda a liberdade da criatura é uma liberdade condicionada. Apesar disso, o ser do puro espírito é plenamente vida pessoal, livre empenho de si-mesmo. Conhecer, amar e servir como ele o faz ― e a alegria bem-aventurada no conhecimento, no amor e no serviço ― tudo isso é ao mesmo tempo receber e aceitar, livre dom de si em direcção a esse dom de vida. Para o homem, não há um único domínio da liberdade que não coincida com toda a amplitude do seu ser. E aqui a alma é um centro num novo sentido: a mediação entre a qualidade de espírito e de corpo-sentidos. Mas a tradicional tripartição entre corpo, alma e espírito não deve ser compreendida como se a alma do homem fosse um terceiro reino entre os dois reinos que existiriam já sem ela e independentemente um do outro. Nela a espiritualidade e a vida sensível coincidem e misturam-se. É precisamente isso que separa o ser próprio de alma-espírito do ser de alma-sentidos e do puro espírito. O homem não é animal nem anjo pois ele é os dois num. A sua condição de corpo sensível é diferente da do animal, e a sua espiritualidade é outra que não a do anjo. [...] Ele sente e experimenta o que se produz no e com o corpo, mas este «sentir» é uma sensação consciente, destinada a transformar-se em percepção compreensiva do corpo e dos processos físicos e na percepção do que do mundo exterior «cai sob os sentidos». A percepção já é um conhecimento, um acto do espírito. Nisso o conhecedor encontra o conhecido, o próprio corpo ― e não unicamente o mundo exterior ― torna-se objecto, embora objecto de um género particular; de certa maneira o eu destaca-se do corpo e levanta-se num movimento de liberdade acima da sua corporeidade e da sua sensibilidade. «De certa maneira», pois ele fica retido. A vida do espírito eleva-se sempre de novo acima da vida sensível e não repousa sobre o seu próprio fundo, mas o eu tem a possibilidade de tomar posição no seu ser superior, e partindo daí, tratar livremente do ser inferior. Ele pode por exemplo fixar como objectivo explorar cognitivamente o seu próprio corpo e a sua própria vida sensível. Ele aprende a utilizar o corpo e os sentidos como instrumento do seu conhecimento e da sua acção, a exerce-los com vista a determinados fins, e assim fazer deles instrumentos cada vez mais perfeitos. Há igualmente a possibilidade de reprimir movimentos sensíveis, de se retirar largamente da vida corpóreo-sensível e assim apoiar-se mais firmemente na vida do espírito. Esta é propriamente o domínio da liberdade: aqui o eu pode realmente criar qualquer coisa a partir dele-mesmo. O que nós chamamos actos livres ― uma decisão, a iniciativa voluntária de uma acção, a adesão explicita a uma ideia «ascendente», a ruptura consciente de um curso de pensamento, questionar, rezar, concordar, prometer, ordenar, obedecer: outros tantos «actos» do eu, diversos na sua significação e na sua estrutura interna, mas todos reunidos por isto: neles o eu dá ao seu ser um conteúdo e uma direcção, e num certo sentido ele «gera» a sua própria vida empenhando-se numa determinada direcção e consagrando-se a um conteúdo de experiência escolhido. Ele não se torna o seu próprio criador, e não é absolutamente livre: a liberdade para a autodeterminação é-lhe dada assim como a «vivacidade» que desenvolve numa direcção escolhida e cada acto é uma resposta à estimulação e à apreensão de qualquer coisa oferecida. Resta contudo aos actos livres a qualidade do empenho de si que é a forma mais autêntica da vida pessoal. Mas toda a influência voluntária sobre o corpo e toda a intervenção formadora sobre o mundo exterior que utiliza o corpo como instrumento, baseia-se no facto de que a liberdade não é restringida ao domínio puramente espiritual, e que este não está fechado sobre ele-mesmo. O fundamento sobre o qual se constroem a vida espiritual e a acção livre ao qual elas ficam ligadas, é-lhe dado como matéria para as levar à luz, lhes dar forma e as utilizar. A vida física e sensível do homem torna-se então ela-mesma uma vida pessoalmente formada e uma parte integrante da pessoa. Mas ela não cessa nunca de ser um «fundo tenebroso». A tarefa jamais acabada do espírito na sua liberdade, é de o perscrutar e de o aperfeiçoar de uma maneira cada vez mais pessoal.

Com isto, ainda não apreendemos o que é o espírito no seu verdadeiramente último sentido. A alma é o «espaço» que se encontra no centro do todo físico-psíquico-espiritual. Enquanto alma sensível, ela habita no corpo, em todos os seus membros e em todas as suas partes; ela recebe do corpo e intervém nele formando-o e conservando-o. Enquanto alma-espírito, ela transcende-se e considera um mundo situado para lá do seu próprio si ― um mundo de coisas, de pessoas, de acontecimentos ― entra em relação com ele compreendendo-o, e recebe dele; mas enquanto alma no mais verdadeiro sentido, ela habita junto dela-mesma e é nela que o eu pessoal tem a sua morada. Aqui se junta tudo o que entra pelo mundo dos sentidos e pelo mundo do espírito; é aqui o lugar da confrontação com tudo isso; é a partir daqui que se toma posição, e é aqui que se ganha o que se torna um bem pessoal, uma parte integrante do seu próprio si ― o que, falando por imagens, vos «passa para o sangue». A alma, como «castelo interior», tal como a descreveu a nossa santa madre Teresa [10], não tem a forma de um ponto como o eu puro, mas é um «espaço» ― um castelo com muitas moradas ― no qual o eu pode mover-se livremente, umas vezes indo para o exterior, outras vezes antes retirando-se para o interior. Não é um «espaço vazio», embora possam aí entrar coisas à profusão e ser acolhidas, e devem mesmo sê-lo, para ela poder desenvolver a vida que lhe é própria . A alma não pode viver sem receber; ela alimenta-se de conteúdos que, «através da experiência», assimila tal como o corpo assimila o alimento de que tira a substância útil. Esta imagem, mais claramente que a do espaço, mostra-nos que não se trata simplesmente do preenchimento de um vazio, mas que o «recetáculo» é um ente dotado de uma essência própria (uma ousia), que recebe à sua maneira e que assimila o que recebe. Tal é a essência da alma com as propriedades e as capacidades que se enraízam nela, que se manifesta na experiência vivida, e que assim recebe aquilo de que tem necessidade para se tornar naquilo que deve ser. Esta essência, com o seu carácter próprio, confere ao corpo, tal como a toda a atividade espiritual da pessoa, a sua marca particular, e além disso emana dele de uma maneira inconsciente e involuntária.

4. [Eu, alma, espírito, pessoa.]

Eu, alma, espírito, pessoa ― manifestamente tudo isto está estreitamente ligado, e no entanto cada um destes termos tem um sentido particular, que não coincide completamente com os dos outros. Por eu, entendemos o ente cujo ser está vivo (e não certamente vivo no sentido da organização da matéria, mas enquanto desenvolvimento do eu num ser que brota desse eu) e que, nesse ser, se apreende a si-mesmo (sob a forma inferior da sensação confusa ou sob aquela, superior, da consciência desperta). Não é equivalente à alma, como também não é equivalente ao corpo. «Mora» no corpo e na alma ― presente em cada ponto em que sente qualquer coisa de matéria viva e atual, quando efetivamente tem mesmo a sua «sede» mais autêntica num ponto determinado do corpo e num «lugar» determinado da alma [11], e é porque o «seu» corpo e a «sua» alma lhe pertencem que transpomos para o homem completo o nome eu. A vida do corpo não é completamente uma vida do eu ―, o crescimento e os processos de nutrição, por exemplo, efetuam-se em larga medida sem que deles sintamos alguma coisa, mesmo que efetivamente experimentemos muita coisa que faz parte deles ou que lhe estão ligados. També a vida da alma não é uma pura vidado eu. O desenvolvimento e a formação da alma realizam-se em grande parte sem que eu tome consciência disso. Pode acontecer que eu considere uma experiência dolorosa como «ultrapassada» e que não pense mais nela durante muito tempo. Mas subitamente ela vem-me à memória através de uma nova experiência vivida, e a impressão que ela agora produz em mim , a ideia que suscita, fazem-me compreender que que nunca deixou de trabalhar em mim durante todo o tempo, e mesmo que, sem ela, eu não seria o que sou hoje. «Em mim», quer dizer na minha alma, há uma profundidade que a maior parte do tempo está escondida e que só raramente se abre. A vida do eu, desperta e consciente, é a via de acesso à alma e à sua vida escondida, tal como a vida sensível é o acesso ao corpo e à sua vida escondida. É uma via de acesso, pois é o testemunho do que se produz na alma e a manifestação da sua natureza. Tudo o que eu «Vivo» vem da minha alma, é o encontro da minha alma, com qualquer coisa que lhe «fez impressão». O seu ponto de partida na alma ou a sua saída podem estar mais à superfície ou mais em profundidade. A sua proveniência e esta estratificação da própria alma manifestam-se na experiência que dela emerge, e que nela está, porque se abrem nela e aí atingem o seu ser atual, presentemente vivo. Isso já se produz na direção originária da experiência vivida, mesmo antes que um olhar retrospetivo (uma reflexão) ― desperta, atenta, observadora e analisadora ― se volte para a experiência vivida, do mesmo modo que a forma mais originária da consciência acompanha a vida do eu sem se dissociar dele como uma perceção particular e sem se voltar para ela. É por isso que todo o homem aprende a conhecer-se a si mesmo na sua simples vida desperta, sem se constituir em objeto e sem se esforçar por se conhecer através da observação e da análise. A consciência originária só se torna perceção de si ou perceção interior (as duas não são coincidentes, porque a perceção do corpo, também ela, faz parte da perceção de si , e porque também há um acesso ao corpo pela perceção externa e através do corpo ― graças aos fenómenos expressivos do corpo ― mas também um acesso à alma a partir do exterior), quando o eu sai da experiência vivida originária e faz dela seu objeto. Depois a alma aparece ao eu como qualquer coisa «do género de um objeto», qualquer coisa de «substancial», com qualidades duradouras, com as suas capacidades que têm necessidades de ser desenvolvidas e acrescidas, com as suas atividades e os seus estados mutáveis. Mas o eu descobre assim a sua própria face, pois ele encontra-se a si mesmo naquele que é o portador da experiência vivida, naquele que realiza as ações e sofre as impressões. O eu do qual brota toda a vida do eu e que nele está consciente dele-mesmo é o mesmo que tem como coisa particular o corpo e a alma, que os engloba e os abraça. O que na coisa morta é o facto da forma de objeto vazio é aqui o trabalho do eu vivo-espiritual-pessoal. Por pessoa, entendemos o eu consciente e livre. É livre por que é «mestre» dos seus atos, porque ― sob a forma de atos livres ― determina a sua própria vida. Os atos livres são o primeiro espaço de dominação da pessoa. Mas como, pela sua ação, ela tem uma influência formadora sobre o corpo e sobre a alma, é toda a sua própria «natureza humana» que pertence ao domínio sobre o qual ela reina. E como pela sua ação psicofísica ela pode intervir no mundo que a rodeia, tem também aí um espaço de dominação que está no direito de considerar como «meu». O que ela realiza livre e conscientemente, é isso a vida do eu; mas ela extrai-a de profundezas mais ou menos grandes: a resolução de fazer um passeio, por exemplo, vem de uma camada muito mais superficial que uma resolução relativa a uma orientação de vida, e esta profundeza é a profundeza da alma, que na vida do eu se torna «viva» e brilha na vida do eu, mas que anteriormente estava escondida e que, apesar deste vislumbre, permanece misteriosa. O que o homem «pode», enquanto pessoa livre, ele só o sabe quando o faz, ou de uma determinada maneira já por antecipação quando se lhe depara como uma exigência. As conexões entre o eu, a pessoa e a alma, tornam-se mais claras. Se tomarmos o eu puro como o «ponto» a partir do qual toda a ação livre se empreende e no qual tudo o que se recebe é sentido e levado à consciência, é completamente possível ver assim as coisas. Mas esta conceção faz abstração do enraizamento da vida do eu no fundo do qual ele surge. O eu é por assim dizer a brecha que se abre da escura profundeza para a clara luz da vida consciente e assim permite passar da «possibilidade» ou «pré-realidade» para a plena presente realidade (da potência ao ato). Ao fazer a experiência deste «poder», o eu torna-se consciente das «forças» que «dormitam» na alma e das quais ele vive. E a vida do eu é a realização, o produto dessas forças, aquilo que as manifesta. Enquanto eu englobando corpo e alma, enquanto eu elucidante pelo saber e dominante pela vontade, a pessoa apareceu-nos como o portador preparado na retaguarda e acima do todo formado pelo corpo e pela alma, ou como a forma unificante de toda a plenitude. Aparece aqui de uma maneira particularmente clara o que foi dito de um modo geral: que a forma vazia não pode existir sem espaço ocupado, nem o espaço ocupado sem forma. A pessoa não saberia viver como eu puro. Ela vive a plenitude da sua essência que brilha na vida acordada sem nunca poder ser inteiramente elucidada ou dominada. Ela traz essa plenitude e ao mesmo tempo é levada por ela como pelo seu fundo escuro. Mostra-se aqui o que é próprio da pessoa humana: o que lhe é comum com o ser-pessoa de Deus e dos puros espíritos e o que deles a distingue. Dotada de uma vida consciente e livre, englobando e portando a plenitude da sua essência, ela assemelha-se aos puros espíritos; surgindo de um fundo obscuro e levada por ele, incapaz de formar, de iluminar e de dominar todo o seu «si» de maneira pessoal, ela fica atrás deles; mas por outro lado, ela goza de um certo privilégio ontológico sobre os puros espíritos criados graças à «profundidade» que lhe é própria, e portanto graças a uma semelhança com Deus diferente da deles.


[1Werke, t. II, VII, § 3, p. 336-349.

[2Na medida em que eles dizem respeito à apreensão imediata da própria vida, ― negligenciamos aqui as lacunas e as insuficiências no conhecimento de objectos estranhos ao eu.

[3Ele não pertence apenas nesta qualidade, mas considera-mo-lo primeiro deste ponto de vista.

[4A separação do corpo e da alma na morte é o seccionamento de uma unidade natural, e ela não pode suprimir a sua pertença recíproca. Nela as duas partes perdem qualquer coisa da sua natureza.

[5Na acepção aristotélico-escolástica da palavra, e não compreendida como forma vazia. Ver Endliches und Ewiges Sein, cap. IV, e em particular o resumo do § 5 (não compreendido neste volume).

[6Ibid., § 5, 1.

[7Ibid., § 5, 2.

[8Ibid., § 4,2 e 5,2.

[9Ibid., § 5,2.

[10THÉRÈSE D’AVILA, Las Moradas del Castilo interior; Le Château intérieur, Oeuvres complètes, Paris, Ed. du Cerf, 1982, t. IV. ― Nota de Edith Stein: Para a santa madre Teresa, trata-se simplesmente de descrever o «castelo da alma» como a «casa de Deus» e de mostrar o que ela-mesma experimentou: a maneira como o próprio Senhor chama a alma da sua perdição no mundo exterior, do qual ele a atrai cada vez mais para junto de si, até que ele possa finalmente uni-la a ele no seu próprio centro. Longe dela a ideia de examinar se a estrutura da alma tem ainda um sentido mesmo se se fizer abstração do facto de que Deus a habita e de ver se há talvez ainda uma outra «porta» de recolhimento para lá da oração. Devemos porém responder afirmativamente às duas questões.

[11Ver A. Pfänder, Die Seele des Menschen, Halle, 1993, p. 20: «O sujeito psíquico tem uma situação determinada no interior do seu espaço consciente. Por um lado, é em determinado sentido o centro da alma e da vida psíquica pessoais. Por outro lado, situa-se atrás dos olhos, pouco mais ou menos no meio da testa [...]. O sujeito aproxima-se sempre dele mesmo quando regressa das outras partes do seu próprio corpo a esse centro que é a cabeça. A partir desse lugar, o sujeito psíquico orienta-se no seu próprio corpo e em todo o espaço envolvente do seu corpo, do qual ele está consciente. Involuntariamente, o olhar de outros homens (e também de determinados animais) dirige-se para esse lugar da cabeça situado por detrás dos olhos, quando quer dirigir-se ao próprio sujeito psíquico.»

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