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A SABEDORIA É UM REFLEXO DA LUZ ETERNA (V. Sb 7,26)

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Da Pessoa - capítulo 2

terça-feira 28 de Fevereiro de 2017

Destaques:

"O abandono é o acto mais livre da liberdade."

"A angústia pode empurrar o pecador para os braços da graça."

"...esperando que um dia brilhe nele a centelha que lhe abrirá os olhos e que dará entrada no reino da Luz."

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Que esse seja um dom, isso depende da natureza da coisa. Quem quer conservar a sua alma perdê-la-á. Assim a alma só pode vir a se precisamente não estiver preocupada com ela mesma. Como se deve compreender isso? Podemos imaginar que um homem acaba por se cansar do mundo e que procura reencontrar-se antes mesmo de a graça o atingir. Pode tentar encontrar-se a si mesmo libertando-se do mundo, quer dizer suspendendo as reacções naturais. O resultado desta acção puramente negativa será ele mesmo negativo. Ao desligar-se de toda a fonte exterior que poderia cumulá-lo, esvazia-se; a mortificação conduz à morte. O próprio da vida espiritual é derramar-se na alma. E quanto mais esta vida é a sua, a sua própria vida interior, menos é capaz de se munir dela.

Uma outra tentativa de se conservar a si mesmo consiste em opor a sua singularidade ao mundo. Não suspendendo impressões e reacções, mas ostentando uma só maneira de reagir. «Quer seja mau ou razoável, eu comporto-me como me convém.» De facto, pode-se dizer de cada individualidade que ela é o centro da sua própria esfera, e que esta esfera tem a sua própria razão. Quanto a saber se é possível a alguém retirar-se completamente para esta esfera, e o que ganharia com isso _ se isso fosse possível _, eis outras tantas novas questões.

Em primeiro lugar, é muito difícil distinguir entre aquilo que é verdadeiramente uma reacção espontaneamente saída do individuo e aquilo que não passa de uma reacção habitual, a maior parte das vezes determinada pelo «espírito do lugar» onde o homem entra ao nascer e de onde ele sai. Acontece frequentemente que, quando pensa agir livre e espontaneamente, ele é completamente dependente, formado por outros e do exterior. Mas admitamos que esta ilusão seja evitada e tenhamos que lidar com uma reacção que brota verdadeiramente de um indivíduo. A reacção enquanto tal não pode, como vemos, ser simplesmente um facto da vida individual. Podemos subtrai-nos à reacção exigida pela razão e assim a uma lei específica da razão; não podemos fazer mais do que escolher uma reacção possível, quer dizer uma reacção que depende do reino da razão e que está submetida às suas leis, mas não podemos produzir a partir da individualidade uma reacção que só a ela pertença. qualquer que seja a forma como a ela se reage, o laço com a impressão subsiste. Resta a orientação para o exterior. Dela resulta que a alma se esgote em reacções que por certo têm a marca do indivíduo, mas que não repousam nele.

Uma terceira via é aberta: a saber que o homem procura adquirir a graça a fim de ele mesmo se encontrar no reino da graça. Nesta situação, ele ainda não está tocado interiormente pela graça (antecedente), mas pelo menos sabe que apenas aí se pode encontrar paz e refúgio. Ora há uma lei estranha que leva a que quem olhe a sua própria alma obstrua a vida da graça e assim o caminho que conduz a si mesmo. Apenas aquele que, largando de mão, se volta para a graça, pode tomar parte nela. Isso parece estranho, pois é em geral o cuidado com a salvação que leva a alma a desejar a graça. Como pode ela estar simultaneamente a cuidar dela mesma e afastar-se de si? De certo, isso apenas é possível enquanto esse cuidado for verdadeiramente preocupado. Ora, esta palavra esconde muitas coisas. Cuidar de pressupõe a familiaridade com aquilo com que se está em cuidado. Ora, não é geralmente esse cuidado que leva à salvação. A preocupação retém a coisa. Distinguiremos portanto um estado que chamamos igualmente cuidado, mas que não acarreta preocupação nem ligação a uma coisa com que teríamos o cuidado: é a angústia, que enche qualquer alma desabrigada. Ela pode tomar formas muito diversas, mas todas essas formas têm em comum uma característica: a de não ser o temor ou o medo de qualquer coisa que a alma teria diante dos olhos. A angústia fixa-se uma vezes sobre isto, outras vezes sobre aquilo; mas aquilo em que ela se fixa não é o que na realidade ela visa. Ela afasta a alma para longe dela mesma; não a retém como faz o cuidado. É efectivamente o estado da alma que provoca a angústia nela. Mas isso não é feito necessariamente sobre a forma de uma motivação explicita. A angústia não brota necessariamente da preocupação que a alma tem com ela mesma, e nada exige que ela compreenda _ objectivamente _ o seu estado. Em compensação, faz parte da angústia ser sentida. E quanto mais claramente a angústia é sentida, mais claramente é vivida como tal.

O estado de alma que provoca a angústia e que nela se exprime é o pecado (peccatum originis et peccatum actuale). Enquanto a angústia que nós consideramos _ a angústia metafisica _ não for confundida com o medo de qualquer coisa, ela arrasta a alma para uma vida periférica: para actividades realizadas para escapar àquilo que angustia, ou para ocupações mundanas próprias para afogar a angústia em emoções que provêm do mundo e que a afastam dela mesma. A segunda atitude, que consiste em se atordoar, só é possível se se discerne a angústia metafísica enquanto tal e a sua relação com o pecado. Mas somente se dela se tiver um conhecimento racional, e não um sentimento profundo. Pois desde que a alma sinta a angústia e o estado de pecado, ela já não pode desfazer-se dela, mesmo que no seu desejo de lhe fugir se atire perdidamente para a vida periférica. Ela fica então agarrada a ela mesma apesar de todos os seus esforços para se prender a qualquer coisa. Ser retido prisioneiro _ o que não é contrário à possibilidade de se afastar de si _ é uma característica da angústia.

O que torna seguramente sensível o estado de pecado e provoca a angústia, é o contacto com a graça e a visão da santidade. As duas coisas vão juntas. Aquele que não for interiormente tocado pela graça também não vê a santidade, mesmo que se encontre com ela. Mas a partir do momento em que a graça o ilumine, mesmo antes de se encontrar aberto a ela, os seus olhos vão abrir-se e a santidade vai tornar-se-lhe visível. Mas pode igualmente acontecer que a graça germine nele antes de ele efectivamente encontrar um santo.

Falamos sempre da graça antecedente, que é pressuposta para que possamos abrir-mo-nos a ela livremente e entrar no seu reino. Podemos comportar-mo-nos para connosco segundo diversas formas de liberdade. A alma pode fechar os olhos, pois a percepção da graça acorda e aumenta o sentimento de estar em estado de pecado, e portanto a angústia cresce; e pode procurar fugir a esta e a si mesma. Então, como dissemos, fica ligada a ela mesma, e entre todas as emoções actuais, é a angústia que cresce. Ela pode também olhar a graça friamente, enfrentá-la e no entanto fechar-se a ela. É a atitude do indivíduo obstinado. Ele quer resistir à angústia através do desafio; mas ao fazê-lo, mergulha cada vez mais profundamente nela. Há enfim uma última possibilidade: a de abraçar a graça sem recursos. É a maneira mais decisiva de a alma se afastar dela mesma, o mais incondicional «largar de mão». Mas para assim poder largar de mão, é preciso que a alma tome posse de si com firmeza, se reúna totalmente à volta do seu centro, ao ponto de não mais poder perder-se. O abandono é o acto mais livre da liberdade. Aquele que, assim, se confia à graça sem mais se preocupar consigo _ com a sua liberdade e com a sua individualidade _ , esse entra nela _ sendo ao mesmo tempo livre e perfeitamente ele mesmo. Eis de que se demarca a impossibilidade de encontrar a via enquanto nos fixar-mos em nós mesmos. A angústia pode empurrar o pecador para os braços da graça. A angústia que empurra por detrás. Mas ao voltar-se completamente para ela, o pecador cura-se da sua angústia, pois a graça liberta-o ao mesmo tempo do pecado e da angústia.

Falámos da possibilidade de uma atitude livre a respeito do pecado. Mas haverá igualmente uma atitude a respeito da graça sem que ela seja eficazmente antecedente? Pode a liberdade antecipar-se à graça? Isso pressupõe um saber sobre a graça e sobre os seu efeitos. E este saber, qualquer um pode possuí-lo mesmo que não tenha sido tocado interiormente pela graça. Pode pôr-se em busca da graça que por ela mesma não o atingiu. Não pode ainda dar-se a ela; isso só é possível na proporção da graça antecedente. Mas desprender-se de si e voltar-se para a graça, isso ele pode. E quando for tocado pela graça, já não há necessidade de um acto específico de dom de si: a graça flui abundantemente para a alma que antecipadamente se tinha aberto a ela, e toma totalmente posse dela. (Quem pode ter parte na graça desta maneira _ como Lutero _ pode evidentemente considerar como nula a cooperação da liberdade.) Mas até lá, vive totalmente na angústia. Não foge para a periferia, mas mantém-se firme, valentemente concentrado em si mesmo, mesmo se na sua alma ele está triste e nu. Neste estado de concentração, ele só pode esperar pacientemente o que vai acontecer. Pode igualmente prepara-se para isso: ocupando-se com coisas que sabe ser santas, mesmo que o espírito do Alto que o enche ainda não lhe foi tornado sensível e se não pode portanto ver ainda a santidade, esperando que um dia brilhe nele a centelha que lhe abrirá os olhos e que lhe dará a entrada no reino da Luz. Este caminho assemelha-se a uma travessia do deserto. A questão não é a de saber quando será atingido o fim. Este caminhar pode encher a vida de um homem.

Entregar-se à graça proveniente não é necessariamente um acto único e a obra de um instante. Mesmo para aquele em que a graça é operante, e que se volta para ela, é necessário o combate de uma vida para que progressivamente venha a desprender-se do mundo natural e dele mesmo. A liberdade absoluta e a integração plena no reino da graça são, num e noutro caminho, o objectivo que não pode ser atingido na vida terrestre nem num nem noutro caminho. Só segundo uma aproximação imperfeita podemos ver que tudo depende disso. Além disso, os dois caminhos não estão tão afastados um do outro que uma visão teórica das coisas nos obriga a deixá-lo compreender. Mesmo o santo conhece os períodos de seca, durante os quais deve resistir no deserto - e conhece-os bem pelo facto de eles se distinguirem dos períodos em que a luz da graça o inunda e o fogo do espírito o abrasa.

Procurávamos compreender que parte toma a liberdade na obra da salvação. Ora, para fazer isso não basta considerar a liberdade. é preciso igualmente verificar o que pode a graça e se existe também para ela uma fronteira absoluta. Já vimos que a graça deve ser dada ao homem. Por si mesmo, pode pelo menos aproximar-se do pórtico, mas nunca poderá forçar a entrada. Além disso, a graça pode vir a ele sem que ele a procure ou a queira. A questão é então a de saber se ela pode realizar a sua obra sem a colaboração da sua liberdade. Pensamos que é preciso responder a esta questão negativamente. E essa palavra pesa muito. Pois que aí é visivelmente dito que a liberdade de Deus, que chamamos a omnipotência, encontra um limite na liberdade do homem.

A graça é o espírito de Deus que desce à alma humana. Ela não pode fazer aí a sua morada se não for aí recebida livremente. Esta verdade é dura. É referida aí - além do limite da omnipotência divina - a possibilidade de princípio de se excluir da redenção e do reino da graça. Não significa um limite da misericórdia divina. Pois que mesmo se não podemos ignorar que a morte atinge uma multidão imensa de homens que nunca terão de facto encarado a eternidade, e para quem a salvação nunca terá sido um problema, que por outro lado são muitos aqueles que durante a sua vida se preocuparam com a salvação sem ter parte na graça, não sabemos no entanto se algures no além, chegará a hora decisiva para todos eles; mas a fé pode dizer-nos que é assim.

O amor de infinita Misericórdia pode portanto descer sobre todos. Acreditamos que assim é. Mas como dizê-lo, quando há almas que constantemente se fecham a este amor? Podemos reter isso como uma possibilidade de princípio. De facto, isso pode vir a ser infinitamente improvável. Precisamente por causa do que a graça proveniente é capaz de realizar na alma. Pode suceder que ela só bata levemente, e haja almas que se abram a ela a partir do mais discreto apelo. Outras não lhe prestam atenção. Ela pode então infiltrar-se nas almas e desenvolver-se nelas progressivamente. Quanto mais vasto é o espaço que ela assim ilegalmente ocupa, menos se torna verosímil que a alma se feche à graça. E ela vê já o mundo na luz da graça. Vê a santidade onde a encontrar e sente-se atraída por ela. Nota igualmente o que é nefasto e impuro, que lhe repugna, e tudo o resto desbota perante estas qualidades. A isso corresponde, no seu foro interior, uma tendência a comportar-se no sentido da graça, conforme a sua própria razão, e não mais segundo a razão natural, ver segundo a do Maligno.Se ela obedecer a este impulso interior, submete-se implicitamente ao domínio da graça. É possível que não o faça. É então preciso que se exerça uma actividade própria, dirigida contra a influência da graça. E este efeito da liberdade representa uma tensão tanto maior quanto mais amplamente a graça proveniente se expandiu na alma. Esta actividade de resistência - como todos os actos livres - apoia-se sobre um fundamento de um outro género, por exemplo sobre impulsos naturais que, na alma, concorrem ainda com os da graça.

Tanto mais a graça ganha terreno sobre o que, antes dela, enchia a alma, mais ela resiste aos actos dirigidos contra ela. E em princípio não limite para esta conquista. Quanto todos os impulsos contrários ao espírito de luz são afastados da alma, uma decisão livre dirigida contra ele torna-se infinitamente improvável É por isso que a fé na grandeza ilimitada do amor e da graça de Deus justifica igualmente a esperança na universalidade da salvação, embora, atendendo ao facto da possibilidade de princípio de uma resistência à graça, a possibilidade de uma condenação eterna permanece igualmente aberta.

Deste ponto de vista, os limites da omnipotência divina, anteriormente assinalados, apagam-se de novo, Eles apenas subsistem enquanto se opuserem unicamente liberdade divina e liberdade humana, sem ter em conta a esfera que constitui o fundamento da liberdade humana. A liberdade humana não pode ser quebrada nem eliminada pela liberdade divina, mas pode, por assim dizer, ser contornada pela astúcia. A descida da graça à alma humana é um acto livre do amor divino. E não há limites para a sua extensão. Saber que via ela escolhe para ser eficaz, porque se afoita junto de uma alma e deixa outra suspirar por ela; saber se isso se produz, quando e como é activa ainda que não notemos nada: são outras tantas questões que escapam a uma investigação racional. Para nós apenas há o conhecimento das possibilidades de princípio, e na base das possibilidades de princípio uma compreensãodos factos que nos são acessíveis.

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