Um pouco mais de Luz

A SABEDORIA É UM REFLEXO DA LUZ ETERNA (V. Sb 7,26)

Página inicial do sítio > Sabedoria humana / Sabedoria Divina > Edith Stein > Da Pessoa > Da Pessoa - capítulo 1

Da Pessoa - capítulo 1

terça-feira 28 de Fevereiro de 2017

A vida psíquica naíve-natural é um jogo de impressões e de reacções, em contínua mudança. A alma recebe impressões do exterior: do mundo em que evolui o sujeito da vida psíquica e que o sujeito recebe e percebe intelectualmente como um objecto; estas impressões põem a alma em movimento, e assim se formam nela atitudes diversas relativamente ao mundo: assombro ou espanto, admiração ou desprezo, amor ou ódio, temor ou esperança, alegria ou tristeza, etc. Mas igualmente vontade e acção. Resumimos tudo isso sob o título de reacções, e relativamente aos últimos exemplos _ querer e agir _ fala-se geralmente de actividade. Não sem razão, pois em todas estas atitudes a alma está em movimento, em acção; e no querer e agir esta acção não permanece nela, mas repercute-se lá fora e contribui para formar e transformar o mundo exterior.

Se virmos as coisas de um ponto mais profundo, justifica-se que consideremos como passiva toda esta engrenagem de atitudes naturais. E ao mesmo tempo diremos que elas não são livres. Pois falta a todos estes movimentos o serem regulados a partir de um ultimo centro interior.

O sujeito psíquico é conduzido a partir do exterior e não se auto-controla. Ora tanto uma como a outra capacidade - auto-controlar-se e regular os seus próprios movimentos - conferem uma marca característica à actividade e à liberdade. A actividade passiva, a reacção como forma fundamental, caracteriza o estado animal da vida psíquica. Isso não exclui que certas atitudes susceptíveis de se inscreverem nesta forma fundamental sejam irrealizáveis no interior da vida psíquica animal.

À vida psíquica naíve-natural opomos uma vida psíquica de estrutura essencialmente diferente, que chamamos liberta (termo que precisa de alguns esclarecimentos): a vida da alma que não é movida do exterior, mas que é conduzida do alto. O do alto é ao mesmo tempo um do interior. Pois ser elevada ao reino do Alto significa para a alma que ela está totalmente implantada em si. E inversamente: ela não pode estar solidamente estabelecida em si se ela não for elevada acima de si - precisamente no reino do Alto. Assim reconduzida a si mesma e ancorada no Alto, ela é pacificada; resgatada das impressões do mundo, ela já não lhe é entregue sem defesa. É a isso que chamamos liberta.

O sujeito psíquico liberto, assim como o sujeito natural-naíve, acolhe o mundo com a sua inteligência. Ele recebe também na sua alma as impressões do mundo. Mas a alma não é movida imediatamente por essas impressões. Ela acolhe-as a partir desse centro, onde ela está ancorada no Alto; as suas tomadas de posição partem desse centro e são-lhe ditadas do Alto. Tal é a compleição espiritual dos filhos de Deus. A sua liberdade é a liberdade do cristão; não é aquela outra liberdade que acabámos de tratar. Através desta está-se liberto do mundo. O género de atitude que corresponde a esta liberdade é por sua vez uma actividade passiva, mas de uma outra espécie que a do reino da natureza. Os processos da vida psíquica natural permanecem afastados do centro, onde a liberdade tem o seu lugar e a actividade a sua fonte. A partir deste centro, a alma orienta a sua escuta para o alto, recebe as mensagens do alto, e submissa, deixa-se conduzir por elas. A actividade cessa na sua própria fonte, no próprio lugar da liberdade não é feito qualquer uso da liberdade.

Depara-mo-nos aqui com mais do que uma dificuldade. A actividade é suspensa - esta suspensão não é, ela própria, um acto? Não se faz qualquer uso da liberdade - não é esse ainda um acto livre, o de renunciar à liberdade? Se assim fosse, não significaria isso que a vida liberta pressupõe a liberdade? Seria preciso ser livre para ser liberto. Seria preciso conter-se para se poder desprender. Não se poderia viver de uma forma naíve no reino da graça, quer dizer no reino do Alto.

Examinemos primeiro este último ponto. Haverá uma inserção originária no reino da graça que corresponderia à vida inocente-natural no mundo? É assim que seria necessário imaginar a vida do homem íntegro antes da queda. E igualmente assim a vida dos anjos, dos espíritos que servem Deus [1]. A vontade divina atravessa-os no seu centro e produz imediatamente os seus efeitos. Eles são submissos sem se submeterem. A sua obediência não supõe qualquer renúncia, nem qualquer uso da liberdade. Nenhum uso da liberdade, mas sim a própria liberdade. A obediência é inseparável da possibilidade de desobedecer, mesmo se de facto nunca se tiver de escolher ou resistir. Os servidores de Deus só podem ser espíritos livres. Instrumentos cegos podem operar segundo leis que a sua Vontade prescreve, mas esta não pode agir com vitalidade através deles. Do mesmo modo apenas existem seres livres que possam ser libertos. Mas esta libertação pode ser inocente, quer dizer que ela não é necessariamente obtida por um acto livre.

Isso só é necessário quando se tratasse de um ser que, inscrito no reino da natureza, fosse entregue à vida natural-naíve. O sujeito destinado a passar do reino da natureza para o reino da graça, deve realizar esta passagem de uma forma livre; nada pode passar-se ou fazer-se sem a sua participação. Entre o reino da natureza e o da graça, encontra-se o reino da liberdade [2]. O centro da actividade, do qual a vida natural-inocente fica afastada, a partir do qual a alma se pode ancorar no Alto, é em si e enquanto tal exterior aos dois reinos. O sujeito livre - a pessoa - é enquanto tal inteiramente exposto ao vazio. Ele possui-se a si mesmo e pode mover-se em todas as direcções; e no entanto, dotado desta liberdade absoluta, ele está completamente fixado em si e condenado à imobilidade. Pois o seu Si está totalmente vazio e só é cheio pelos dons do reino ao qual ele se abandona em virtude da sua liberdade.

É pois pouco possível falar de um reino da liberdade, visto que este reino não tem dimensões e resume-se a um ponto. A pessoa, tomada unicamente como sujeito livre, não é capaz de nenhum movimento da alma; toda a sua vida psíquica se desenrola num reino que tem espaço, e a alma deve encontrar a relação com um tal reino para se poder manifestar nele. Para estar à altura de fazer qualquer coisa da sua liberdade, o sujeito livre deve pois renunciar a ela - pelo menos parcialmente; para ter alma e vida, deve ligar-se a um reino. O destino da pessoa decide-se à volta da questão do que sacrifica da sua liberdade e do que conserva dela, em vista de quê oferece o que sacrifica e que uso faz da liberdade.

É evidente que a pessoa não pode subtrair-se ao reino da natureza sem se ligar a um outro reino. Retirar-se sobre si nunca pode significar que a pessoa se apoia inteira e exclusivamente em si mesma, como parece possível enquanto não for considerado o vazio que constitui o sujeito puramente livre [3]. Enquanto não se fixar num outro reino, deve ficar parcialmente ligado ao reino das natureza. É o que acontece quando se passa da vida natural-naive para a vida autárcica. A vida psíquica natural-naive - que é de estrutura animal - é descentrada. O acesso à estrutura pessoal põe em cena a posição central, sobre a qual o sujeito psíquico pode livremente organizar-se e tomar estatura de pessoa. Materialmente, esta mudança de estrutura não adiciona nada à vida psíquica. O que distingue essencialmente o estádio animal e a pessoa, é que esta pode - pode, mas não deve - receber as impressões psíquicas e reagir-lhes a partir desse centro. Os comportamentos que ao nível animal estas impressões espontaneamente desencadeiam, a pessoa pode aceitá-los ou recusá-los, pode livremente colocá-los em acção ou subtrair-se a eles. A este nível, tornam-se possíveis actos livres, dos quais o animal não é capaz. Estes actos, que em princípio só podem efectuar-se na base de tomadas de posição, devem precisamente o seu conteúdo material a este fundamento, sobre o qual eles se constroem. Estes actos que representam a vida própria do sujeito enquanto tal [4], são tão vazios quanto o próprio sujeito, e tanto quanto ele precisam de ser carregados de riquezas colhidas algures.

As acções activas da pessoa autárcica não são portanto materialmente diferentes das acções passivas da esfera psíquica da qual ela adquire a mestria. Ela dispõe desta esfera, mas apenas dela. O que é possível neste domínio, ela pode gerá-lo a seu contento. A sua actividade consiste em escolher entre o que é possível. Certamente ela pode reprimir certas reacções psíquicas, ocasionalmente ou sistematicamente, ou favorecer outras e cultivá-las, e assim trabalhar na formação do seu carácter. Tais são a autonomia e a auto-educação das quais ela é capaz. Ultrapassar-se a si mesmo, quer dizer transformar radicalmente o Eu natural e preenchê-lo com um conteúdo novo: disso, a pessoa é por princípio incapaz por ela própria.

A livre disposição que ela tem da sua esfera psíquica natural põe ainda outros problemas. Entre os possíveis que a ela se apresentam, ela pode escolher a seu total contento. Esta escolha pode ser perfeitamente arbitrária, ou obedecer a um princípio. No primeiro caso, examinaremos ainda o que se deve entender por "arbitrário". No segundo caso, devemos perguntar-nos de onde tira a pessoa o princípio de selecção. Um arbitrário ilimitado significaria que a pessoa se decide sem razão. Ela pode simplesmente deixar agir os mecanismos da vida psíquica e aceitá-los globalmente. Este seria o uso mínimo que ela poderia fazer da sua liberdade, e ao mesmo tempo o menos perigoso. Pois que a vida psíquica natural é regida por uma razão escondida; ela está submetida a leis que o sujeito ignora e às quais - enquanto vida inocente - ela obedece cegamente. Se a pessoa se desprende do percurso natural da vida psíquica e se prende ora a isto ora aquilo, sem ter um fio director que a conduza à decisão, ela cai abaixo do nível animal; a sua vida psíquica torna-se caótica. Enquanto que em virtude da sua liberdade é capaz de um olhar racional, cai por abuso de liberdade numa irracionalidade radical.

Comparada com isto, a vida psíquica da pessoa que escolhe segundo princípios seguros entre os possíveis naturais, aparece de novo como um cosmos. Como um mundo cujas leis não são seguidas cegamente, mas são escolhidas livremente e inteligentemente cumpridas. Para isso, não é necessário que a pessoa transgrida - materialmente - a sua esfera psíquica natural (o que em regime de autarcia seria totalmente incapaz de fazer). Basta que faça uso da sua liberdade para se conhecer a si própria - quer dizer a estrutura da sua vida psíquica e as leis que a regem.

O conhecimento no sentido estrito (ou, mais exactamente, o trabalho intelectual que a ele conduz) é autenticamente uma actividade, e como tal, só um sujeito livre é capaz dela. Um sujeito inocente pode, em grande medida, receber informações e saber, mas não pode conhecer. Como todos os actos livres, as operações racionais são completamente vazias e devem o seu conteúdo ao substratos das quais por princípio dependem (neste caso, são em última análise informações). Em virtude da sua liberdade, a pessoa é pois capaz de penetrar cognitivamente na sua própria vida psíquica e descobrir as leis a que ela obedece. Além disso, pode escolher entre aquelas, e designar algumas a que decide então obedecer exclusivamente. Isso é possível porque as leis da razão - ao contrário das leis da natureza - não necessitam, mas motivam, e só funcionam como leis naturais no quadro de uma vida psíquica em que o sujeito não é livre, ou não faz qualquer uso da sua liberdade.

A vida psíquica da pessoa, cognitivamente esclarecida e guiada, eleva-se assim acima da vida animal - precisamente porque ela se desenvolve à luz do conhecimento. Não se deveria de qualquer forma sobrestimar esta luz. Ao lado do verdadeiro conhecimento, o erro é um resultado possível das livres operações da razão. A razão cognitiva pode enganar-se e desencaminhar a pessoa que a segue; nesse caso os princípios que ela adopta para a sua vida psíquica não têm mais que as aparências enganadoras da razão, e esta mesma vida psíquica será certamente ordenada e esclarecida, e portanto não razoável, e enquanto tal inferior à vida psíquica animal.

O perigo de cair no irracional não cessa de espreitar a pessoa que se agarra à sua liberdade e que quer ser o seu próprio mestre. A sua vida espiritual torna-se especificamente exposta, desprotegida.

Se ela quiser manter a sua alma abrigada e assim seguramente ganhá-la, é necessário que ela encontre o contacto com um outro reino para lá do da natureza. No reino da natureza, a alma não se possui. O animal vagabundeia e em nenhum lado está em sua casa. Está constantemente entregue ao que o rodeia, ao que toma posse dele e o força a sair de si. Não lhe é possível barricar-se; a sua alma não é uma fortaleza na qual ele se possa refugiar. A pessoa que se estabelece no reino da natureza tem a possibilidade de se fechar àquilo que a solicita do exterior. Mas enquanto ela só tiver a sua liberdade como bastião, só o pode fazer esvaziando-se constantemente a si mesma e esgotando-se a libertar-se. Apenas num novo reino a sua alma pode encontrar uma plenitude e tornar-se assim a sua própria morada.

Há várias possibilidades de se encher de um conteúdo novo. A pessoa pode ligar-se a um espírito que transcende a natureza, que lhe dá novas forças, diferentes das da natureza, e que eventualmente a torna capaz, graças a essas forças, de tomar uma posição dominante no reino da natureza. Examinaremos então duas coisas: a nova relação com o reino da natureza, e a relação desta pessoa com o espírito ao qual se ligou. Esta relação assegura-lhe uma posição fora da natureza; uma posição que - por oposição à liberdade pura - é verdadeiramente estabelecida. Aí ela pode fixar-se, a partir de aí ela pode receber as impressões que lhe chegam da natureza, e responder-lhes através de reacções que já não provêm necessariamente das possibilidades inscritas no reino da natureza. Ela está assim propriamente livre relativamente à natureza. Mas estará ela verdadeiramente libertada, no sentido descrito mais acima, e estará junto dela mesma? Nada o garante. Tudo depende do espírito com o qual ela fez o contracto, e do que significa esse contracto.

Em primeiro lugar, espírito é um termo ambivalente, e deve ser tomado neste duplo sentido. Significa por um lado uma pessoa espiritual, e por outro uma esfera. As relações que se podem estabelecer entre uma pessoa espiritual e uma esfera espiritual são de dois géneros: por um lado, toda a esfera espiritual emana de uma pessoa (eventualmente de uma pluralidade de pessoas) e esta é o seu centro, por outro lado uma pessoa pode estar integrada numa esfera que não emana dela. O que nós chamávamos o reino do Alto ou da Graça é a esfera espiritual que emana de Deus. Os anjos são pessoas que nele se inscrevem por natureza.

Atendendo a isso, ligar-se a um espírito tem igualmente um duplo sentido. Isso quer dizer: introduzir-se numa esfera espiritual e deixar-se encher dela. E quer igualmente dizer: submeter-se à pessoa que é o centro dessa esfera. Ora isso pode eventualmente fazer-se pela mediação de uma pessoa que já pertence a essa esfera e à qual a outra se submete sem que, no entanto, ela constitua o centro. É assim que se pode ser cheio do espírito do Alto, quer dizer encontrar o contacto com o reino da Graça, se se segue um santo sem se ser directa e imediatamente submetido a Deus.

Aquele que, procurando ligar-se ao novo reino se submete ao espírito deste último, pode fazê-lo sob a forma de uma submissão no sentido estrito: por meio de um acto livre, Põe-se ao serviço desta esfera e do seu Senhor. Mas isso pode fazer-se de outra forma, como no caso que nos serviu de exemplo: a saber que um homem procura fixar-se fora da natureza para poder dominá-la. Naquelas lendas em que são apresentados casos deste género - Próspero [5], Fausto [6] -, a situação parece antes inversa. Estas personagens, em vez de elas próprias se submeterem, parecem procurar pôr ao seu serviço espíritos capazes de dominar a natureza. Mas isso não passa de uma aparência. O homem só pode entrar em contacto com espíritos exteriores à natureza ligando-se - implicitamente - à sua esfera e deixando-se impregnar por eles. Mas é possível que devido ao comportamento desses espíritos, isso lhe seja ocultado. O Senhor da esfera no qual ele é recebido pode excepcionalmente submeter-se à sua vontade - por exemplo dominando as forças da natureza em vez dele - e assim - enchê-lo secretamente do seu espírito. Ou pode ficar escondido, e enviar espíritos do seu reino encarregando-os de se pôr ao serviço do homem. O homem acredita que eles lhe estão submetidos, enquanto que na realidade eles obedecem ao seu Senhor, e assim põem o homem ao serviço deste Mestre.

Quando, desta maneira, o homem se estabelece num reino exterior à natureza, não ganha a sua alma nem regressa a si. O espírito que assim o atrai ao seu reino procura precisamente tomar posse da sua alma e enchê-lo do seu espírito. Não lhe deixa espaço para a sua própria vida. A sua servidão é pior que no estado de natureza. O homem inocente não é livre, no sentido em que está constantemente exposto às impressões exteriores e que a sua vida se esgota em reacções. Ora, estas são ainda as suas reacções. Em compensação, aquele que é possuído por um espírito mau já não reage à sua própria maneira, torna-se estrangeiro para ele mesmo; a sua alma é dominada por este espírito que age através dela. Cair num reino cujo mestre é ávido de almas para as poder dominar, não pode, portanto, jamais significar que se encontrou a paz. A alma é continuamente expulsa para fora dela própria e não encontra lugar onde repousar.

O exemplo característico que escolhemos mostrava como é possível que se seja preso num tal reino. Aquele que procura posicionar-se fora da natureza para poder dominá-la, permanece referido a ela. Procura-se a si mesmo, mas apenas no sentido do Eu livre. Quer ter um ponto de apoio para a sua actividade. Não se preocupa em pacificar a sua alma e de nela se refugiar. Também não encontra nenhuma morada para ela. Procurando dominar, cairá na mais profunda servidão.

A alma só pode encontrar-se a si mesma e encontrar a paz num reino em que ela procura o Senhor não para ele mesmo mas para ela mesma. Devido a esta plenitude não exigente mas superabundante e infinitamente generosa, chamamos-lhe o reino da Graça. E o reino do Alto, porque ser acolhido nele significa ser elevado. Ambas as determinações correspondem ao olhar de quem as vê de baixo e relativamente a si. Se quisermos dar-lhe um nome que o designe puramente em si mesmo, segundo a sua essência interna, deveríamos dizer: O reino da Luz. Quando a graça exerce a sua acção na alma, esta é cheia do que lhe convém perfeitamente, e só a ela.Esta plenitude cumula-a. O que doravante chegar até ela do exterior não pode - como no estado de natureza - entrar nela sem detenção. Certamente, há recepção, mas a resposta a este influxo vem da plenitude da alma.

É possível penetrar mais neste mistério? Tentamos fazer isso perguntando como pode acontecer que uma pessoa que pertença ao reino da natureza entre em relação com um outro reino - e mais particularmente com o reino da graça.

Na natureza, todos os seres animados mantêm entre eles, e de uma maneira modificada igualmente com os seres inanimados, uma relação originária. Enquanto que tal, todo o ser animado é entregue a tudo o que está compreendido na unidade da natureza, de uma maneira tal que dela recebe impressões e que a elas reage segundo leis que caracterizamos como leis racionais que operam na sombra. Trata-se de um ser sem liberdade pessoal, ele é entregue sem defesa às impressões e às reacções e encerrado nas conexões da natureza sem possibilidade alguma de se libertar delas e de as transcender. Trata-se de uma pessoa dotada não apenas de uma alma, mas de uma vida espiritual livre, como é o caso do homem no reino da natureza, tem a possibilidade de se subtrair a impressões e de se recusar a certas reacções. A isso corresponde, como experiência positiva, o facto de o espírito não ser obtusamente submetido a impressões, mas - na sua atitude de origem - estar aberto a um mundo que a ele se apresenta visivelmente. Enquanto que tal, o espírito está na luz.

Nenhum ser livre e espiritual está inteiramente fechado no reino da natureza. A liberdade de se subtrair ao jogo natural das reacções dá-lhe a possibilidade de ter uma posição fora da natureza, ou mais precisamente: leva-lhe testemunho. E a abertura de espírito é em princípio universal. Tudo o que é visível, ele pode vê-lo. Tudo o que é um objecto pode ser colocado diante dele. Na realidade, certamente, cada espírito individual não tem um campo de visão ilimitado. O facto dele estar ligado a um fundo natural, sobre o qual ele se eleva, significa ao mesmo tempo que o seu olhar está fixo sobre o reino no qual está imerso. Mas este entrave pode soltar-se. Um ser livre tem a possibilidade de se libertar disso e de ver para lá da esfera natural.

Ora isso só pode acontecer se até ele chegar qualquer coisa da esfera à qual ele quereria ligar-se. A sua liberdade permite-lhe levar o seu olhar a esferas longínquas , ou de se fechar a elas. Mas somente para o caso de a ele se oferecerem espontaneamente. Não saberia conquistar o que não se oferece a ele. O homem não pode apanhar a graça a não ser que ela o apanhe. Só pode sucumbir ao mal se for tentado pelo mal. Como ser puramente natural, situa-se para lá do bem e do mal. Estas duas possibilidades só existem para ele se transcender a natureza.

É preciso perguntar-mo-nos se é apenas a sua liberdade que o coloca fora da natureza. Se a abertura originária do espírito se encontra limitada devido à sua relação com um ser natural, e se só se apresenta a ele espontaneamente aquilo que a ele está ligado enquanto ser natural - não deve haver uma ligação com as esferas nas quais ele deve irromper, que corresponde aos laços naturais? Ou esta relação significa apenas que a natureza se expõe perante ele, sem que dele para ela, e dela para ele, haja matéria para preocupação?

Outras esferas poderiam - e precisamente graças à abertura universal do espírito - tornar-se-lhe próximas, mas apenas a favor de uma afluência activa vinda de ambas as partes. A natureza não faz apelo a um tal esforço, e ela não seria capaz disso, pois ela não constitui uma esfera espiritual e não emana de um centro pessoal, de onde só pode proceder uma actividade. A segunda possibilidade parece plausível. No entanto, apenas se se tratar de uma conquista espiritual de novas esferas, de uma tomada de conhecimento destas. E não se devesse suceder que a alma fosse ao mesmo tempo recebida num reino estrangeiro. Enquanto o homem apenas receber a esfera estrangeira por meio do espírito, é possível que, quanto à alma, permaneça separada, da mesma forma que pode conhecer e reconhecer a natureza fechando-se completamente a ela. Tornar manifesto ao espírito não é equivalente à infusão na alma. Pode acontecer que o espírito veja e que alma fique vazia. Mas enquanto o espírito do novo reino não encher a alma, esta não pode tomar posição nele. Quanto a saber como esta infusão é possível, a questão está ainda sem resposta.

O mal não poderia aproximar-se do homem se não tivesse nele uma morada originária. O homem liga-se livremente a ele quando sucumbe à tentação. Esta «ligação», que não é uma simples apreensão intelectual, mas um abandono espiritual, só é possível se aquilo a que o homem se liga já se introduziu nele. Ora só entra na alma aquilo que lhe é conforme. Ela não é aberta a tudo e a todos, como o espírito o pode ser. Pode portanto parecer que ela pertence de uma forma idêntica aos diversos reinos no seio dos quais pode desenvolver-se. Parece incompreensível que ela possa sentir-se em casa mais num do que noutros e pergunta-mo-nos porque é que - ao invés do reino da Natureza - é preciso uma abertura particular para neles se introduzir. Se na origem a alma a alma não pertence mais a uns que a outros, porque não pode ela ser igualmente por todos os lados estimulada a reagir? Em primeiro lugar: pertencer originariamente a todos não significa pertencer a todos da mesma maneira. O que está na natureza está unicamente nela. Estar ligado a tudo o que pertence à natureza significa, quanto à alma, simplesmente que ela pode receber «estimulações» externas. Nada do que parte de lá pode entrar nela. E ela própria for totalmente «natureza», o que significa: surdamente fechada nela própria, absolutamente nada pode entrar nela. Vimos que apesar disso ela não está em sua casa, pois a sua vida esgota-se em reacções a solicitações externas. Ela não chega a dar livremente vida ao que vive nela.

Só a alma espiritualmente desperta está aberta ao ponto de poder receber alguma coisa nela. E o que nela se derrama é ainda de ordem espiritual. A alma só pode realmente instalar-se nas esferas espirituais, e não na natureza. É certo que até agora não falámos da natureza neste sentido. Quando se tratava de reacções naturais, não nos ficávamos pela vida psíquica surda, mas visávamos ao mesmo tempo qualquer coisa que se encontra igualmente na vida espiritual. Entre as impressões e as reacções, há relações que designamos como o termo lei da razão. Ora, esta razão - já o dissemos - umas vezes governa de uma maneira oculta outras vezes manifesta-se claramente e torna-se visível acerca das impressões e das reacções. As leis racionais apoderam-se do conteúdo das impressões e das reacções independentemente do tema da vida do espírito na qual se operam estas reacções. Não há nenhuma necessidade de um espírito particular, de uma esfera particularmente qualificada, para que possam exercer o seu império. Na medida em que a vida do espírito se desenrola sob a forma da motivação, quer dizer sob a forma de respostas às impressões conformes à razão, o sujeito «espiritual» está submetido às leis da razão tão espontaneamente que todos os processos naturais obedecem às leis naturais. E tendo em conta esta subordinação evidente, pode-se falar de um segundo reino da natureza, ou mais exactamente de um reino da razão natural. Parece inútil sublinhar que entre a natureza no sentido próprio e esta natureza espiritual subsiste uma diferença radical. Isso ressalta claramente do precedente.

Despertando para a liberdade de espírito, o sujeito encontra-se no reino da razão natural. Este mesmo despertar, bem como a sua pertença a este reino e a tendência a comportar-se conforme as suas leis, não são ainda um efeito da liberdade. Existe, no entanto, mesmo uma liberdade no lugar dessa tendência e de todas as leis racionais particulares concretas. O sujeito pode sempre ir de encontro àquilo que lhe é conforme. Quanto mais ele se encontra consciente disso e mais uso disso ele faz, menos ele é integrado no reino da razão. Não mais, com efeito, que na natureza especificada, não se encontra aqui verdadeiro repouso. O que precisamente permite entrar neste reino - a liberdade de espírito - exclui dele num mesmo tempo o sujeito e o campo sobre o seu próprio solo. O reino da razão não é uma esfera espiritual que emana dum centro pessoal e que nele se encontra qualificado. É apenas nestas esferas que a alma pode realmente ser recolhida, e só se pode atingi-las transgredindo a liberdade. Esta entrada é um acto livre, através do qual a alma cede ao espírito desta esfera que procura apropriar-se dela, e a ele se dá; assim ele pode tomar posse dela e ela pode escolher domicílio no seu reino.

Permanece a questão de se saber porque é que a alma pode pertencer mais verdadeiramente a uma esfera espiritual que a outra. Dizíamos nós que para poder entrar na alma, o mal deve ter nela uma morada de origem. Não seria pois uma potência exterior que toma posse dela, como nos tinha parecido? A tentação não a assalta do exterior; ela descobre-a nela, que apenas espera ser legitimada por um acto livre. O Tentador aborda Cristo do exterior. Mas não encontra nenhuma porta de entrada. Cristo não entra em tentação e não tem necessidade de se defender dela: Ele apenas a apanha para lhe dar uma boa resposta. Assim ele revela a tentação enquanto tal e mostra como convém enfrentá-la. [7]

Por si só o homem não é capaz de reconhecer a tentação que nele age, nem de lhe resistir. Naquele que não está justificado pela fé, é por assim dizer um acaso se não peca, mas resiste à tentação. Não é então o pecado na sua qualidade própria que ele rejeita, mas - na medida em que se trata de uma recusa motivada e ponderada - o que é pecaminoso, o que contém esta qualidade «pecado», devido a um valor negativo que, vindo de algures, o afecta real ou aparentemente. o facto da tentação só pode manifestamente produzir-se numa alma que abriga o bem e o mal. Àquele que está cheio de Deus, a tentação não pode atingi-lo. Aquele que está inteiramente repleto de mal não tem em que basear uma escolha contra o mal. A livre recusa de um pressupõe sempre o outro, para nele se apoiar.

Se é pois preciso que o mal tenha feito morada na alma para que ela possa ser tentada, como é possível que ela própria não tenha nele igualmente a sua morada? Em primeiro lugar, há diferenças entre apresentar um ponto fraco à tentação, ser tentado e ter cedido à tentação. É apenas no último caso que a alma é colocada sob a marca do mal, que é submetida ao seu império, de tal maneira que o espírito do mal pode nela dar entrada. Ora, dizíamos nós que este espírito agia a partir dela, e que já não é ela que reage, de uma maneira natural, às impressões que recebe. É da ordem natural das coisas que a reacções correspondam impressões que lhe são coordenadas segundo leis racionais. Há coisa agradáveis; outras são detestáveis. Gostar do que é agradável, detestar o que é detestável, todos o fazem naturalmente. Além disso, há diferenças individuais na forma de gostar ou de detestar, e na disposição para estas paixões. Ora, detestar o que é agradável não é natural, mas especificamente diabólico; e isso, só o Mau o pode fazer, ou alguém de que o Maligno tenha tomado posse. As suas reacções já não se explicam por razões naturais nem por traços de carácter, mas unicamente pelo espírito do Mal. O ódio é a reacção específica do Maligno, ou mais exactamente o acto espiritual específico pelo qual o Mal pode e tem necessariamente de se difundir segundo o seu ser material [8]. O mal é um fogo devorador. Se permanecesse fixado em si, teria de se devorar a si mesmo. É por isso que, eternamente impelido para a frente, tem de procurar um domínio onde possa estabelecer-se; e tudo aquilo de que ele toma posse é tomado desta mesma agitação e lançado fora. É por isso que a alma, quando se entregou ao Mal, não está junto dela mesma, e então não está em sua casa neste reino.

Consideremos agora a relação da alma com o reino da Graça. Também a graça, para que a alma possa assenhorar-se livremente dela, já deve estar activa na alma; e para poder ser eficaz, deve já encontrar acesso nela. E tal como o faz o espírito do Mal, também o espírito da Luz, o santo Espírito, provoca na alma de que ele toma posse uma trans-formação das suas reacções naturais. Há reacções que ele exclui, mesmo quando elas seriam naturais: ódio, espírito de vingança, etc. Há actos espirituais e disposições psíquicas que são as formas específicas da sua vida actual: amor, piedade, perdão, felicidade, paz. Mantêm-se quando não parecem já não ter motivação natural. É por isso que a paz de Deus está para lá de toda a razão. E é por isso que o Reino de Deus deve ser uma loucura para os que estão fora dele. O espírito de Luz é na sua essência uma plenitude superabundante, uma riqueza perfeita nunca diminuída. Ele não irradia pela sua incapacidade de ficar junto de si _ ao irradiar, permanece junto de si e conserva-se a si mesmo. E no que ele enche, ele permanece e isso permanece nele. A alma que o recebe fica repleta dele e ela guarda-o junto dela, mesmo quando ela o difunde ao seu redor; e quanto mais ela o irradia, mais ela fica junto dele. Assim pode encontrar nele uma verdadeira morada. Mas o que se passa então com a sua individualidade? Não é destruída quando as reacções naturais são suspensas; e não é ela mesma impedida de viver por si mesma quando o espírito novo entra na alma e nela governa? É disso que se trata na palavra sobre a morte pela qual a vida se ganha, sobre a aversão à sua própria alma, etc.

Na realidade, não há nenhuma dúvida de que a alma, quando renasce do Espírito, sofre uma transformação radical. A vida em que ela se exprimia a si mesma e dava curso ao seu temperamento é interrompida. Primeiramente desaparece dela, à medida que a graça se derrama, aquilo que expunha ao mal zonas de fraqueza _ que no entanto faziam parte dela. Depois diminui a ligação à razão natural e às reacções que ela prescreve. E no entanto, o que chamamos a individualidade, o mais próprio da alma, não é apagado. A individualidade não é uma disposição para determinadas reacções, nem uma faculdade psíquica. Ela conserva-se por detrás de todas as disposições e reacções naturais. Onde elas estiverem presentes, imprime-lhes o seu selo, mas é independente delas e não desaparece com elas.

Todo o carácter de uma pessoa, quer dizer a totalidade das disposições naturais especificadas pela sua individualidade psíquica, pode ser destruído; a alma pode ser arrancada a este fundamento natural do qual e com o qual ela se edificou, e no entanto conservar a sua individualidade. Esta individualidade é intangibilis. O que entra na alma e o que dela sobressai é impregnada disso. Mesmo a graça é recebida à sua própria maneira. A sua individualidade não é afastada pelo espírito de Luz, pelo contrário, une-se a ele e recebe dele um novo nascimento. Pois que a alma só vive plena e puramente o seu ser próprio na medida em que permanecer junto dela mesma. Em todas as suas reacções, ela não vive apenas o que ela é, mas é simultaneamente submetida às leis que regem aquelas, enquanto tais e independentemente do sujeito que as produz. Só desprendida do mundo exterior e encontrando o repouso ela vive puramente a sua própria vida. Mas a este repouso e a este desprendimento _ repeti-mo-lo várias vezes _ ela só acede ao ser edificada no Reino do Alto. É então que, por graça, a alma é dada a ela mesma.


[1O que os distingue não nos interessa aqui.

[2Veremos imediatamente que isso não é um reino stricto sensu.

[3É por isso que os anjos que usam a sua liberdade e querem recusar servir o seu Senhor, não podem verdadeiramente afirmar-se. Eles devem necessariamente cair do reino de Luz para um outro reino, e esta necessidade provém do facto de eles o encontrarem já constituído e não o produzirem a partir deles próprios. Este reino traz em si os traços da sua origem: ele só é qualificado pela oposição àquele a que o anjo se subtraiu - como trevas, vazio, privação, nada.

[4Reconhecemos-lhe a capacidade de aceitar ou de recusar tomadas de posição.

[5Personagem principal da peça de Shakespeare "A Tempestade". O mago Próspero, que tem como aliado o espírito de Ariel, provoca um dia uma tempestade na qual naufragam o seu irmão e outros. (N.d.T.P.).

[6Personagem principal de uma peça de Goethe. O Dr. Fausto faz um pacto com o demónio Mefistófeles que o enche de uma energia satânica geradora de uma paixão pela técnica e pelo progresso. (N.d.T.P.)

[7A edição alemã assinala que Edith Stein tinha riscado esta passagem com lápis («O Tentador aborda Cristo [...] como convém enfrentá-la»), e tinha reescrito, numa folha separada, igualmente a lápis, a seguinte versão: «Só há uma tentação à qual o sujeito livre, enquanto tal e independentemente do que enche a sua alma, está exposto: a única à qual poderia sucumbir o anjo e o homem na sua integridade originária, e com a qual o Tentador podia abordar Cristo, _ a tentação de se apoiar em si mesmo, de se constituir a si mesmo Senhor. É ao mesmo tempo a única tentação que, segundo a sua natureza, é uma revolta contra Deus e nada mais, e da qual tem de surgir o mal, enquanto que todas as outras pressupõem a constituição do mal e só são implícita ou explicitamente igualmente dirigidas contra Deus. Só podemos opor-nos a uma tentação, qualquer que seja a sua espécie, se estivermos cheios do espírito do Alto.»

[8Ver a nota 3.

Alguma mensagem ou comentário ?

Fórum requer assinatura

Para participar nesse fórum, deve estar previamente registado. Por favor indique a seguir o identificador pessoal que lhe foi fornecido. Se não está registado, deve inscrever-se.

Ligaçãoinscrever-sepalavra - passe esquecida ?