Um pouco mais de Luz

A SABEDORIA É UM REFLEXO DA LUZ ETERNA (V. Sb 7,26)

Página inicial do sítio > Sabedoria humana / Sabedoria Divina > Edith Stein > O Mistério do Natal

"As trevas cobriam a terra e Ele veio como a luz que brilha nas trevas..."

O Mistério do Natal

"Os que se ajoelham em volta do Presépio são estes filhos da luz: frágeis inocentes, pastores cheios de fé, reis humildes..."

segunda-feira 25 de Dezembro de 2017

Hoje despertei cedo e de um só folego reli, mais uma vez, o livrinho de Edith Stein sobre o Natal, editado pela "Editora Rei dos Livros", Lisboa, 1999. Da última vez que o li, pelo Natal do ano passado, pensei que seria bom partilhá-lo convosco. É a isso que hoje me dispus, em jeito de agradecimento à autora e ao Deus Menino. O título encerra a promessa de um olhar diferente sobre o que está patente aos nossos olhos e é isso que a autora faz: de uma forma simples e encantadora revela-nos a profundidade do mistério, conduzindo-nos à sua essência, como é próprio da sua abordagem fenomenológica.

O Advento e o Natal

Quando os dias se tornam mais curtos, quando no Inverno caem os primeiros flocos de neve, então, docemente renasce a lembrança do Natal. Desta palavra emana um encanto misterioso ao qual um coração dificilmente pode resistir. Até aqueles para quem a evocação do Menino de Belém nada significa, crentes de outra fé ou descrentes, preparam a festa e tentam acender aqui e ali um raio de alegria. Durante semanas e meses, um rio de amor espalha-se por toda a terra. Festa do amor e da alegria, é a Estrela para qual todos se dirigem neste primeiro mês do Inverno.

Mas para o cristão, e em particular para o católico, o Natal é ainda outra coisa. A Estrela guia-o até ao Presépio, ao Menino que vem trazer a paz aos homens. Em inúmeras e graciosas imagens, a arte cristã representa-O, e as velhas melodias, que evocam todo o encanto da infância, glorificam-nO.

No coração de todo aquele que vive em Igreja, os sinos do Rorate [1] e os cânticos do Advento despertam um santo e ardente apelo; e para aquele a quem a fonte inesgotável da Liturgia mata a sede, o grande profeta da Encarnação repete, dia após dia, as suas poderosas ameaças e promessas: «Ó céus, espalhai o vosso orvalho! Que das nuvens desça a salvação! O Senhor vem! Adoremo-Lo! Vem, Senhor, não tardes! - Jerusalém, grita de alegria, porque o teu Salvador vem ao teu encontro.» De 17 a 24 de Dezembro as Grandes Antífonas do Ó do Magnificat (Ó Sabedoria, Ó Adonai, Ó Filho da raça de Jessé, Ó chave da Cidade de David, Ó Oriente, Ó Rei das Nações), cada vez mais intensas e cada vez mais ardentes, gritam: "Vem salvar-nos!" E cada vez mais carregada de promessas, chega a resposta: "Vede, tudo se cumpriu" (último domingo do Advento). E enfim: "Hoje sabereis que o Senhor vai chegar, e amanhã vê-Lo-eis surgir na Sua glória."

Sim, quando à noite as velas brilham nas árvores e se trocam os presentes, um desejo insatisfeito impele-nos para fora para outra luz, até que toquem os sinos da missa da meia noite, durante a qual, sobre os altares enfeitados com velas e flores, se renova o milagre da Noite Santa: "E o Verbo fez-Se carne." É então o momento feliz em que se realizam as nossas esperanças.

Os Companheiros do Filho de Deus feito Homem

Cada um de nós experimentou já esta alegria da Noite Santa. Todavia o céu e a terra ainda não se tornaram numa só realidade. Hoje como outrora, a Estrela de Belém brilha numa noite bem escura.

Nos dias que se seguem ao Natal, a Igreja troca os paramentos de festa por paramentos da cor do sangue. Estêvão, o mártir que primeiro seguiu o Senhor na morte, e os Santos Inocentes, crianças de Belém e Judá, que foram estranguladas por Mãos cruéis de carrascos, reúnem-se à volta do Menino do Presépio, como Seu séquito. Que significa isto? Onde está agora a alegria dos Céus, onde está a alegria silenciosa da Noite Santa, onde está a paz na terra? Paz na Terra aos homens de boa vontade (mas nem todos têm boa vontade). O misterioso poder do mal envolvia o mundo numa treva, por isso foi necessário que o filho do Pai eterno descesse do Céu.

As trevas cobriam a terra e Ele veio como a luz que brilha nas trevas, mas as trevas não O receberam. Àqueles que O receberam trouxe a luz e a paz: a paz com o Pai do Céu, a paz com todos os que também são filhos da luz e filhos do Pai, e a paz profunda do coração; mas não a paz com os filhos das trevas. A esses, o Príncipe da Paz não oferece a paz, mas a espada. Para esses, é o obstáculo contra o qual correm e os quebra. Eis a dura e grave verdade que não deve esconder-nos o encanto poético do Menino do Presépio.

O Mistério da Encarnação e o mistério do mal estão estritamente ligados. à luz descida do Céu opõe-se, mais sombria e lúgubre, a noite do pecado.

O Menino do Presépio estende as mãos e o Seu sorriso parece já querer dizer o que os lábios de Jesus homem pronunciarão mais tarde: "Vinde a mim, vós todos os que sofreis e andais abatidos." Alguns responderam ao Seu chamamento. Assim os pobres pastores que, no campo de Belém, tendo visto uma luz no céu e sabido pelo anjo da feliz notícia, disseram cheios de confiança: "Vamos a Belém!", e puseram-se a caminho. Assim os Reis Magos que, vindos do Extremo Oriente, seguiram, com a mesma fé simples, a maravilhosa Estrela; das mãos do Menino espalhou-se sobre eles o orvalho da graça e "ficaram cheios de alegria".

Estas mãos dão e exigem ao mesmo tempo. Vós, sábios, deixai a vossa sabedoria e tornai-vos simples como as crianças. Vós, reis, dai as vossas coroas, os vossos tesouros, e tornai-vos humildes diante do Rei dos reis: tomai sem hesitar a parte que vos toca das penas, dos sofrimentos e das fadigas que o Seu serviço exige. Vós, crianças, que nada podeis oferecer: as mãos do Menino tomam a vossa frágil existência ainda antes do seu início. Oferecida ao Senhor da Glória não pode estar mais bem entregue.

"Segue-me!", dizem as mãos do Menino como mais tarde irão dizê-lo os lábios do Homem. Assim chamaram o jovem discípulo que o Senhor amou e que, agora, também faz parte do cortejo do Presépio. São João, um jovem de coração puro, partiu sem perguntar: onde? porquê? Abandonou o barco do pai e seguiu o Mestre em todos os Seus caminhos, até ao Gólgota.

"Segue-me!" Este apelo, o jovem Estêvão também o ouviu. Seguiu o mestre no Seu combate, contra os poderes das trevas, contra a cegueira da incredulidade obstinada, e foi Sua testemunha, pela palavra e pelo sangue. Caminhou segundo o Seu espírito, o espírito de Amor que combate o pecado, mas ama o pecador, e que, até na morte, defende, diante de Deus, o homicida.

Os que se ajoelham em volta do Presépio são estes filhos da luz: frágeis inocentes, pastores cheios de fé, reis humildes, Estêvão, o discípulo inspirado, e João, o apóstolo do amor, todos esses que seguiram o chamamento do Mestre. No polo oposto, na noite da surpreendente frieza e da cegueira, estão os doutores da lei que, sabendo quando e onde nasceria o Salvador, não se dirigiram a Belém, e o Rei Herodes que também quis mandar matar o Senhor da Vida.

Em frente do Menino do Presépio, os espíritos dividem-se. Ele é o Rei dos reis, o Senhor da Vida e da Morte. Ele diz: "Segue-me", e quem não é por Ele é contra Ele.

Também Se dirige a nós e nos faz escolher entre a luz e as trevas.

O Corpo Místico de Cristo

Ser um com Deus

Ser um com Deus; onde isso nos conduz ignoramo-lo e não devemos perguntar antes do tempo. Apenas sabemos que, para aqueles que amam o Senhor, todas as coisas se encaminham para o melhor. De resto, os caminhos onde o Senhor nos conduz levam muito para além desta terra.

Ó "admirável comércio"! Encarnando, o Criador do género humano partilha connosco a Sua divindade. Para esta obra admirável é que o Salvador veio ao mundo. Deus fez-se filho dos homens para que os homens se tornem filhos de Deus. Um homem tinha quebrado o laço da nossa pertença a Deus, um homem devia renová-lo e resgatar-nos. Mas nenhum descendente desta velha cepa, doente e abastardada, tinha esse poder. Um novo enxerto, são e nobre, devia ser feito no velho tronco. Ele tornou-Se um de nós e, mais ainda, fez-Se um connosco. Eis a grandeza da raça humana: sermos todos um. Se fosse de outro modo, se fôssemos indivíduos autónomos e separados, livres e independentes uns dos outros, a queda de um não teria arrastado a queda dos outros. Por outro lado, o preço da expiação poderia ter sido pago por nós e teríamos ficado livres, mas a justiça de Deus não nos teria sido atribuída, a nós pecadores, e nenhuma justificação teria sido possível.

Assim Deus veio para formar connosco um corpo misterioso: Ele, nossa cabeça, nós, Seus membros. Se unirmos as nossas mãos às do menino, se respondermos "sim" ao Seu "segue-me", então pertencemos-Lhe e já não há em nós obstáculo à vida divina.

Começamos então a viver a vida eterna. Claro que ainda não gozamos da visão beatífica na luz da glória. Caminhamos sempre na obscuridade da fé, mas já não pertencemos totalmente a este mundo, pertencemos já ao reino de Deus. Quando a Virgem, bem-aventurada entre todas, pronunciou o seu "fiat", o reino de Deus apareceu sobre a terra e ela foi a sua primeira serva. Os que, antes e depois do nascimento do Menino, O reconheceram em palavras e em actos, São José, Santa Isabel e o seu filho, todos os que estavam em volta do Presépio, entraram, também, neste reino.

O reino de Deus surgiu de maneira diferente da que se imaginava a partir dos Salmos e dos Profetas. Os Romanos eram dominadores do país, e os grandes sacerdotes e os escribas continuavam a manter o povo sob o seu domínio. Mas, invisivelmente, aquele que pertencia ao Mestre já tinha dentro de si o reino dos Céus. As dores terrenas não lhe eram tiradas, outras ainda se acrescentavam, mas uma força o sustinha, tornando o jugo suave e a carga leve.

Ainda hoje é assim para os filhos de Deus. A vida divina de que a alma é abrasada é esta luz que veio das trevas, milagre da Noite Santa. E quem a possui compreende isto. Para os outros é uma linguagem incompreensível. O Evangelho de São João é todo ele uma tentativa para exprimir a luz eterna que é amor e vida. Deus em nós e nós n’Ele, tal é a nossa participação no Reino de Deus que, na Encarnação, teve a sua origem.

Ser um em Deus

Ser um com Deus é apenas um princípio. Porque sendo Cristo a cabeça do Corpo místico e nós os seus membros, as nossas relações mútuas são relações entre membros, e todos nós fazemos um em Deus, vivendo da Sua vida divina. Se Deus é um em nós, e se Ele é Amor, não podemos não amar os nossos irmãos. Por isso o nosso amor ao próximo dá a medida do nosso amor a Deus.

O amor segundo a natureza liga-nos aos que nos são próximos pelos laços de sangue, pelas afinidades de carácter ou pela comunhão de interesses. Os outros são "estranhos" que "não nos são nada", ou que até nos podem ser antipáticos. Para um cristão, não pode haver "estranhos". É sempre nosso "próximo" aquele que se encontra ao nosso lado, aquele que mais necessita de nós. Pouco importa que seja ou não nosso parente, que nos agrade ou não, que seja ou não "moralmente digno" da nossa ajuda. O amor de Cristo não conhece fronteiras, nunca se detém, nem a fealdade, nem a escória Lhe repugnam. Ele veio para os pecadores e não para os justos. E se o amor de Cristo vive em nós, faremos como Ele e procuraremos as ovelhas perdidas.

O amor segundo a natureza quer para si o ser amado e possuí-lo sem partilha. Porém, Cristo veio para entregar ao Pai a humanidade perdida, e todo aquele que ama com o Seu amor busca os homens para Deus e não para si. Esta é também a maneira mais certa de os ter eternamente; porque se tivermos acolhido alguém em Deus, nós somos em Deus um com ele, enquanto que, por vezes, o desejo de conquista - e isso acontece de facto sempre, mais cedo ou mais tarde - conduz à perda daquilo que se persegue. Isto é tão válido no que respeita o amor do outro, como no respeita o amor próprio ou no que toca os bens temporais. Quem se dá às coisas exteriores para ganhar e conservar, perde. Quem se entrega a Deus, ganha.

Seja Feita a Vossa Vontade

Tocamos aqui uma terceira marca da filiação divina: "Nisto saberei que Me amais, se guardardes os Meus mandamentos."

Ser filho de Deus significa caminhar de mão dada com Ele, fazer a Sua vontade e não a nossa, entregarmo-nos a Ele nas nossas preocupações e nas nossas esperanças, não nos inquietarmos a respeito do nosso futuro. Assim se alcança a liberdade e a alegria.

Como são poucos, entre os verdadeiros crentes, os que as possuem, e até mesmo entre os que fizeram da sua vida uma entrega heroica! Quantos caminham vergados sob o peso esmagador das suas preocupações e dos seus deveres. Conhecem a parábola das aves do céu e dos lírios do campo, mas se encontrarem alguém sem recursos, sem pensão, sem segurança social, vivendo preocupado com o futuro, abanam a cabeça como diante de algo insólito. Certamente, esperar que o Pai cuide dos nossos rendimentos, da nossa situação da maneira que acharmos mais desejável, seria enganarmo-nos redondamente. A confiança em Deus não pode ser inabalável, se não incluir a disposição de tudo aceitar dEle. Só Ele sabe o que nos convém. E se um dia a necessidade e a miséria viessem ter connosco em vez de uma vida segura e confortável, se o fracasso e a humilhação fossem para nós preferíveis à honra e ao prestígio, seria necessário estarmos disponíveis para isso. Quem vive assim pode viver o presente, sem preocupações quanto ao futuro.

"Seja feita a Vossa vontade". Tal deve ser a regra da vida cristã, orientando o dia desde a manhã até à noite, o decorrer do ano, a vida inteira, como única preocupação do cristão. Todas as outras preocupações, o Senhor assume-as.

Uma única, todavia, permanece enquanto vivermos. Objetivamente, não estamos definitivamente seguros de permanecer sempre nos caminhos do Senhor. Como os nossos primeiros pais puderam sair da família de Deus para o campo dos rebeldes, assim cada um de nós está sempre na corda bamba entre o nada e a plenitude da vida divina. E, mais tarde ou mais cedo, faremos a experiência disso.

Na infância da vida espiritual, quando justamente começamos a abandonar-nos à conduta de Deus, sabemos que uma mão muito firme e muito forte nos conduz; e o que devemos fazer ou abandonar aparece-nos com toda a clareza. Mas nem sempre será assim. Aquele que pertence a Cristo deve viver toda a vida de Cristo. Como Ele atingirá a idade adulta e, um dia, entrará no caminho da Cruz que, passando por Getsémani, conduz ao Gólgota. E todos os sofrimentos que nos atingem exteriormente não são nada em comparação com a noite escura da alma, quando a luz divina deixa de Se ouvir. Deus está lá, mas escondido e em silêncio.

Por que terá de ser assim? São os mistérios de Deus que nós tocamos, mas que não se deixam compreender completamente. Apenas nos é possível começar a contemplá-los.

Deus fez-se homem para nos fazer participar de novo na Sua vida. Participação que existia no princípio e que é o fim último. Mas, neste intervalo, temos de viver. Cristo é ao mesmo tempo Deus e Homem, e quem quiser participar na Sua vida tem de tomar parte na Sua vida divina e na Sua vida humana. A natureza humana de que Ele se revestiu deu-Lhe a possibilidade de sofrer e de morrer. A natureza divina que Ele possui desde toda a eternidade confere ao Seu sofrimento e à Sua morte um valor infinito e uma força redentora. O sofrimento e a morte de Cristo continuam no Seu Corpo místico e em cada um dos seus membros. Todo o homem tem de sofrer e morrer. Mas se for membro vivo de Cristo, o seu sofrimento e a sua morte recebem então, da divindade de Cristo, um poder de redenção. Esta é a razão objetiva pela qual todos os santos desejaram o sofrimento. Não se trata de um gosto mórbido: o que à vista da inteligência natural, aparece quase como uma perversão, revela-se, todavia, à luz do mistério da Redenção, como a razão mais elevada.

Assim, unido a Cristo, o cristão permanece inabalável, mesmo na noite escura em que Deus lhe parece longínquo e em que se julga abandonado; e talvez a Divina Providência lhe imponha este suplício a fim de que um dos seus irmãos, realmente prisioneiro do erro, seja liberto.

Digamos nós também: "Seja feita a Vossa vontade", mesmo no coração da noite mais sombria.

Os Caminhos da Salvação

Poderemos nós dizer: "Seja feita a Vossa vontade", se não conhecermos as verdadeiras exigências de Deus? Poderemos ainda permanecer nos Seus caminhos, se a luz interior se apagar? Sim, porque ainda que, em princípio, esta possibilidade exista, há tais e tão poderosos meios que é realmente pouco verosímil que possamos perder-nos.

Deus veio para nos salvar, nos unir a Si, nos unir aos outros, conformar a nossa vontade à Sua. Conhecendo a nossa natureza, tem isso em consideração e dá-nos tudo o que pode ajudar-nos a atingir esse objectivo. O Menino transforma-Se no Mestre, ensina-nos o que devemos fazer.

Para impregnar toda a nossa vida humana da vida divina, não basta ajoelharmo-nos uma vez por ano diante do Presépio e deixarmo-nos cativar pelo encanto da Noite Santa. É preciso, ao longo da vida, comunicar com Deus, dóceis aos ensinamentos que nos transmitiu, obedientes às Suas leis.

Primeiramente devemos rezar como o Salvador nos ensinou: "Pedi e recebereis." Promessa garantida de que seremos atendidos. Aquele que, todos os dias, disser do fundo do coração: "Senhor, seja feita a Vossa vontade", pode ter confiança. Não deixará de cumprir a vontade divina, mesmo que, subjectivamente, não tenha já a certeza disso.

Vamos mais longe: Cristo não nos deixou Órfãos. Enviou o Seu Espírito que nos ensina toda a verdade. Estabeleceu a Igreja que o Seu Espírito governa, instituiu os Seus vigários pela boca dos quais o Espírito nos fala numa linguagem humana. Nela, reuniu os fiéis numa comunidade, e quer que cada um seja responsável pelos outros. Assim não estamos sós, e se a confiança no nosso discernimento e até na nossa oração vem faltar-nos, a força da obediência e a força da intercessão suprem essa falta.

"E o Verbo fez-Se carne". Este mistério tornou-se verdade no estábulo de Belém. Mas ainda se realizou de uma outra maneira: "O que comer da Minha carne e beber do Meu sangue possuirá a vida eterna."

O Salvador, sabendo que somos e permanecemos homens que, todos os dias, temos de combater as nossas más inclinações, vem de maneira verdadeiramente divina em socorro da nossa humanidade. Assim como o nosso corpo carnal tem necessidade do pão quotidiano, assim a vida divina em nós exige um alimento incessantemente renovado.

"Eis o pão vivo que desceu do céu." Naquele que verdadeiramente o recebe como alimento realiza-se cada dia o mistério do Natal, a Encarnação do Verbo. Não há caminho mais seguro para permanecer unido a Deus e para se enraizar cada dia mais fortemente e mais profundamente no Corpo místico de Cristo.

Eu bem sei que para muitos esta opção parece muito radical. De facto, implica para a maior parte das pessoas uma transformação total do comportamento e da vida interior. Mas é absolutamente necessário que seja assim. Dar em nós espaço para a Eucaristia, para que o Senhor transforme a nossa vida na Sua, é exigir muito?

Perde-se muito tempo com leituras fúteis, em conversas de café e de rua, distrações em que se perdem o tempo e as forças. Não seria de todo possível reservar uma hora da manhã para se recolher em vez de se distrair, para ganhar forças em vez de se esgotar, a fim de enfrentar as tarefas diárias?

Mas evidentemente, esta hora não será tudo. Ela dará ao nosso dia o seu verdadeiro sentido, e já não será possível deixarmo-nos ir à deriva, mesmo por um momento.

Não se pode escapar ao juízo daquele que se visita todos os dias. Mesmo que não se troque qualquer palavra, capta-se pelo comportamento dos outros aquilo que se é. Tenta-se uma adaptação aos que nos rodeiam, e se não se consegue, a vida em comum torna-se um suplício. O mesmo se passa com os contactos quotidianos com o Salvador. Tornando-se cada dia mais sensível ao que Lhe agrada ou desagrada, aquele que há pouco se satisfazia consigo próprio vê tudo, daí em diante, a uma outra luz. Depara-se facilmente com tanta fealdade, que corrige como pode. Descobre muitas coisas que não acha belas nem boas e às quais entretanto lhe é difícil dar solução. assim, torna-se a pouco e pouco mais pequeno e mais humilde, mais paciente, mais indulgente ao argueiro que está no olho do próximo, pois está suficientemente ocupado com uma das traves que estão no seu. E aprende então a suportar-se a si próprio na luz inexorável da presença divina, e a abandonar-se à misericórdia de Deus que, finalmente, triunfa daquele que escarnece das suas forças.

É longo o caminho que conduz da suficiência do "bom católico" que "cumpre os seus deveres", lê "bom jornal", vota "bem", etc., mas que no restante faz como lhe agrada, ao abandono nas mãos de Deus, na simplicidade da criança e na humildade do publicano. Mas quem já deu um passo neste caminho não voltará atrás.

Assim a vida filial em Deus consiste em ser ao mesmo tempo pequeno e grande. Viver da Eucaristia faz-nos sair totalmente dos limites estreitos da nossa vida pessoal para nos enraizar e fazer-nos crescer em todas as dimensões da vida de Cristo.

Quem visitar o Senhor na Sua casa não irá sempre encher a sua oração com a sua própria pessoa, com as suas coisas, mas interessar-se-á primeiro pelas coisas de Deus. Participar cada dia no Santo Sacrifício arrasta-nos, sem darmos conta, na corrente da vida da Igreja. As orações e os ritos do altar, ao longo do ano litúrgico, desvendam-nos a história da Salvação e dão-nos dela um conhecimento cada vez mais profundo. A acção sacrificial impregna-nos cada vez mais do mistério central da nossa fé, eixo da história do mundo, mistério de Encarnação e de Redenção. Como assistir ao Santo Sacrifício com um espírito e um coração abertos sem se deixar penetrar pela sua finalidade, sem se deixar tomar pelo desejo de unir a sua vida pessoal à grande obra do Redentor!

Os mistérios do cristianismo formam um todo indivisível. Abordar um é abordar todos. Assim o caminho de Belém leva-nos irresistivelmente ao Calvário, do Presépio à Cruz.

Quando a Santíssima Virgem apresentou o Menino no Templo, foi-lhe anunciado que uma espada trespassaria a sua alma, que o seu filho vinha para a queda e ressurreição de um grande número, e que seria um sinal de contradição! Anúncio do sofrimento, do combate entre a luz e as trevas que já se tinha manifestado no Presépio.

Acontece que, em certos anos, a Candelária [2], festa do ciclo da Encarnação, e a Septuagésima, prelúdio da Paixão, se celebram quase ao mesmo tempo. Na noite do pecado brilha a estrela de Belém. No fulgor da luz que emana do Presépio, desce a sombra da Cruz. A luz apaga-se nas trevas de sexta-feira santa, mas para surgir ainda mais radiosa, sol de misericórdia, na aurora do terceiro dia.

O caminho do Filho de Deus feito Homem, através de Getsémani e do Gólgota, conduz ao triunfo da Páscoa.

Com o Filho do Homem, através do sofrimento e da morte, o nosso caminhar, o de toda a humanidade, chega também à glória da Ressurreição.


[1O "Rorate Caeli" é considerado uma das mais belas e sublimes composições não só do Advento, mas de todo o repertório litúrgico da história do cristianismo. Seu refrão vem do livro do profeta Isaías (45, 8), em que se suplica: "Que os céus, das alturas, derramem o seu orvalho; que as nuvens façam chover a vitória; abra-se a terra e brote a felicidade e, ao mesmo tempo, ela faça germinar a justiça! Sou eu, o Senhor, a causa de tudo isso" (Aleteia.org).

[2Festa litúrgica também conhecida como "Nossa Senhora das Candeias" em que a Igreja celebra, a 2 de fevereiro, a Apresentação do Menino No Templo (nota do webmaster)

Alguma mensagem ou comentário ?

Fórum requer assinatura

Para participar nesse fórum, deve estar previamente registado. Por favor indique a seguir o identificador pessoal que lhe foi fornecido. Se não está registado, deve inscrever-se.

Ligaçãoinscrever-sepalavra - passe esquecida ?